A COROAÇÃO, por Charles Eisenstein

Atualizado: Abr 2

Esse artigo foi traduzido por Carolina Bergier e Guilherme Lito sem autorização do autor. Achamos que era um texto importante de trazer para o português, não o exploraremos de forma comercial e caso o autor proteste, o tiraremos do ar.


Ele foi publicado originalmente no site de Charles Eisenstein, aqui e enviado para quem assina sua lista de email com o seguinte texto introdutório:


Olá a todos,


Estive enfurnado por duas semanas, ignorando basicamente tudo para escrever um artigo sobre o Covid-19. Eu fucei cada buraco, metabolizei dúzias de perspectivas conflitantes. Toda vez que eu achava que tinha conseguido dar conta do tema, eu tinha novas informações e a situação mudava. Mergulhei repetidamente na piscina obscura do eu-não-sei. Escrevi e apaguei sessões inteiras. O resultado é um artigo grande, 9.000 palavras, que provavelmente tenta fazer coisas demais. Ao mesmo tempo eu sinto que é uma tremenda de uma conquista. Quaisquer que sejam suas falhas, e apesar de não saber o que é verdade, algo verdadeiro surgir dele.


O seu título é A Coroação. Ofereço ele a você com todo o meu coração.


Charles


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Charles Eisenstein, Março 2020


Durante anos, a normalidade foi esticada quase até o ponto de ruptura, uma corda puxada cada vez mais, esperando por um beliscão do bico do cisne negro para quebrá-lo ao meio. Agora que a corda se rompeu, amarramos as pontas novamente ou desfazemos ainda mais as tranças penduradas para ver o que podemos tecer delas?


Covid-19 está nos mostrando que, quando a humanidade está unida por uma causa comum, mudanças fenomenalmente rápidas são possíveis. Nenhum dos problemas do mundo é tecnicamente difícil de resolver; eles se originam no desacordo humano. Com coesão, os poderes criativos da humanidade são ilimitados. Alguns meses atrás, uma proposta para interromper as viagens aéreas comerciais teria parecido absurda. O mesmo acontece com as mudanças radicais que estamos fazendo em nosso comportamento social, economia e o papel do governo em nossas vidas. Covid nos mostra o poder da nossa vontade coletiva quando concordamos com o que é importante. O que mais podemos alcançar, em coesão? O que queremos alcançar e que mundo queremos criar? Essa é sempre a pergunta que vem depois que qualquer um desperta para o seu poder.


O Covid-19 é como uma intervenção de reabilitação que quebra o domínio viciante da normalidade. Interromper um hábito é torná-lo visível; é transformá-lo de uma compulsão para uma escolha. Quando a crise acabar, poderemos ter a oportunidade de perguntar se queremos voltar ao normal ou se há algo que vimos durante essa interrupção nas rotinas que queremos trazer para o futuro. Podemos perguntar, depois que tantos perderem o emprego, se esses eram os empregos que o mundo mais precisava, se nosso trabalho e criatividade seriam melhor aplicados em outros lugares. Podemos perguntar, depois de um tempo sem isso, se realmente precisamos de tantas viagens aéreas, férias na Disneyworld ou eventos comerciais. Que partes da economia queremos restaurar e quais podemos escolher deixar de lado? E em uma nota mais sombria, e o que fazer das coisas que estão sendo retiradas agora — liberdades civis, liberdade de reunião, soberania sobre nossos corpos, encontros pessoais, abraços, apertos de mão e vida pública — que poderemos precisar para exercer políticas intencionais e para ter vontade pessoal para restaurar?


Durante a maior parte da minha vida, tive a sensação de que a humanidade estava se aproximando de uma encruzilhada. A crise, o colapso, a ruptura eram sempre iminentes, perto da curva, mas demoraram a chegar. Imagine andar por uma estrada e, à frente, você a vê, a encruzilhada. É logo acima da colina, virando a esquina, depois da floresta. No topo da colina, você vê que estava enganado, era uma miragem, estava mais longe do que você pensava. Você continua andando. Às vezes, ela aparece, às vezes desaparece da vista e parece que essa estrada continua para sempre. Talvez não haja uma encruzilhada. Não, aí está de novo! Sempre está quase aqui. Nunca está aqui.


Agora, de repente, fazemos uma curva e aqui está ela. Paramos, quase incapazes de acreditar que agora está acontecendo, quase incapazes de acreditar, após anos de confinamento no caminho de nossos antecessores, que agora finalmente temos uma escolha. Temos razão em parar, atordoados com a novidade da situação. Por causa dos cem caminhos que irradiam à nossa frente, alguns levam na mesma direção que já seguimos. Alguns levam ao inferno na Terra. E alguns levam a um mundo mais curado e bonito do que jamais imaginamos ser possível.


Escrevo estas palavras com o objetivo de ficar aqui com você — confuso, assustado, talvez, mas também com um senso de uma nova possibilidade — neste ponto de caminhos divergentes. Vamos olhar alguns deles e ver aonde nos levam.


* * *


Eu ouvi essa história de uma amigo na semana passada. Ela estava em uma mercearia e viu uma mulher chorando no corredor. Desrespeitando as regras de distanciamento social, foi até a mulher e a abraçou. “Obrigada”, disse a mulher, “é a primeira vez que alguém me abraça em dez dias.”


Ficar sem abraços por algumas semanas parece um pequeno preço a se pagar para se impedir uma epidemia que pode levar milhões de vidas. Há um forte argumento a favor do distanciamento social no curto prazo: impedir que um aumento repentino de casos da Covid sobrecarregue o sistema médico. Eu gostaria de colocar esse argumento em um contexto mais amplo, especialmente quando olhamos para o longo prazo. A não ser que institucionalizemos o distanciamento e redesenhemos a sociedade em torno dele, vamos ter consciência de que escolha estamos fazendo e por quê.


O mesmo vale para as outras mudanças que ocorrem na epidemia de coronavírus. Alguns comentaristas observaram como ele se encaixa perfeitamente em uma agenda de controle totalitário. Um público assustado aceita restrições de liberdades civis que, de outra forma, seriam difíceis de justificar, como o rastreamento ininterrupto dos movimentos de todo mundo, tratamento médico forçado, quarentena involuntária, restrições de viagens e liberdade de reunião, censura ao que as autoridades consideram ser desinformação, suspensão do habeas corpus e policiamento militar de civis. Muitos destes estavam em andamento antes do Covid-19; desde o seu advento, eles têm sido irresistíveis. O mesmo vale para a automação do comércio; a transição da participação em esportes e entretenimento para visualização remota; a migração da vida dos espaços públicos para os privados; a transição das escolas físicas para a educação online, o declínio das lojas físicas e o movimento do trabalho humano e do lazer nas telas. O Covid-19 está acelerando tendências pré-existentes, políticas, econômicas e sociais.


Embora tudo o que mencionei acima sejam justificadas no curto prazo com base no achatamento da curva (curva de crescimento epidemiológico), também estamos ouvindo muito sobre um “novo normal”; isto é, as mudanças podem não ser temporárias. Como a ameaça de doenças infecciosas, assim como a ameaça do terrorismo, nunca desaparece, as medidas de controle podem facilmente se tornar permanentes. Se fossemos nessa direção, a justificativa atual deve fazer parte de um impulso mais profundo. Analisarei esse impulso em duas partes: o reflexo do controle e a guerra contra a morte. Após compreendido isso, surge uma oportunidade iniciática, que já estamos vendo na forma de solidariedade, compaixão e cuidado que o Covid-19 inspirou.


O reflexo do controle


No momento que escrevo, as estatísticas oficiais dizem que cerca de 25.000 pessoas morreram do Covid-19. Ao fim, o número de mortos pode ser dez vezes ou cem vezes maior, ou até mesmo, se os palpites mais alarmantes estiverem certos, mil vezes maior. Cada uma dessas pessoas tem entes queridos, familiares e amigos. Compaixão e consciência nos chamam a fazer o que pudermos para evitar tragédias desnecessárias. Isso é pessoal para mim: minha infinitamente querida, porém frágil, mãe está entre as mais vulneráveis ​​a uma doença que mata principalmente os idosos e os enfermos.


Quais serão os números finais? É impossível responder a essa pergunta no momento da redação deste texto. Os primeiros relatórios foram alarmantes; durante semanas, o número oficial de Wuhan, que circulava incessantemente na mídia, foi de chocantes 3,4%. Isso, associado à sua natureza altamente contagiosa, apontava para dezenas de milhões de mortes em todo o mundo, ou até 100 milhões. Mais recentemente, as estimativas caíram, pois ficou aparente que a maioria dos casos eram assintomáticos ou sintomas leves. Como os testes foram focados em pacientes gravemente enfermos, a taxa de mortalidade parece artificialmente alta. Na Coréia do Sul, onde centenas de milhares de pessoas com sintomas leves foram testadas, a taxa de mortalidade relatada é de cerca de 1%. Na Alemanha, cujo teste também se estende a muitos com sintomas leves, a taxa de mortalidade é de 0,4%. Um artigo recente da revista Science argumenta que 86% das infecções não foram documentadas, o que aponta para uma taxa de mortalidade muito menor do que a atual taxa de mortalidade de casos indicaria.


A história do cruzeiro Diamond Princess reforça essa visão. Das 3.711 pessoas a bordo, cerca de 20% deram positivo para o vírus; menos da metade deles apresentaram sintomas e oito morreram. Um cruzeiro é o cenário perfeito para contágio, e houve muito tempo para o vírus se espalhar a bordo antes que alguém fizesse algo a respeito, mas apenas um quinto foi infectado. Além disso, a população do cruzeiro estava fortemente representada (como na maioria cruzeiro) pelos idosos: quase um terço dos passageiros tinha mais de 70 anos e mais da metade tinha mais de 60 anos. Uma equipe de pesquisa concluiu a partir do grande número de casos assintomáticos que a verdadeira taxa de mortalidade na China é de cerca de 0,5%. Isso ainda é cinco vezes maior que a gripe. Com base no exposto (e ajustando para dados demográficos muito mais jovens na África e no sul e sudeste da Ásia), meu palpite é de cerca de 200.000 a 300.000 mortes nos EUA — mais se o sistema médico estiver sobrecarregado, menos se as infecções se espalharem ao longo do tempo — e 3 milhões globalmente. Esses são números sérios. Desde a pandemia da gripe de Hong Kong de 1968/9, o mundo não experimenta algo parecido.


Minhas suposições podem facilmente estar erradas por uma ordem de magnitude. Todos os dias, a mídia relata o número total de casos do Covid-19, mas ninguém tem idéia de qual é o número real, porque apenas uma pequena proporção da população foi testada. Se dezenas de milhões tivessem o vírus de forma assintomática, não o saberíamos. Para complicar ainda mais a questão, há a alta taxa de falsos positivos nos testes existentes, possivelmente tão alta quanto 80%. (E veja aqui ainda mais incertezas alarmantes sobre a precisão do teste.) Deixe-me repetir: ninguém sabe o que realmente está acontecendo, inclusive eu. Sejamos conscientes de duas tendências contraditórias nos assuntos humanos. A primeira é a tendência da histeria se alimentar, excluir dados que não alimentam o medo e criar o mundo à sua imagem. O segundo é a negação, a rejeição irracional de informações que podem prejudicar a normalidade e o conforto. Como Daniel Schmactenberger pergunta: Como você sabe se o que acredita é verdade?


Diante da incerteza, eu gostaria de fazer uma previsão: a crise vai acontecer de tal forma que nunca saberemos. Se a contagem final de mortes, que será objeto de disputa, for menor do que se temia, alguns dirão que é porque os controles funcionaram. Outros dirão que é porque a doença não era tão perigosa quanto nos disseram.


Para mim, o enigma mais desconcertante é o motivo pelo qual, atualmente, parece não haver casos novos na China. O governo não iniciou a quarentena forçada até bem depois que o vírus foi estabelecido. Deveria ter se espalhado amplamente durante o Ano Novo Chinês, quando todos os aviões, trens e ônibus estão lotados de pessoas que viajam por todo o país. O que está acontecendo? Novamente, eu não sei, e você também não.

Se o número final de mortos é de 50.000 ou 500.000 ou 5 milhões, vejamos outros números para ter uma perspectiva. Meu ponto NÃO é que o Covid não é tão ruim assim e que não devemos fazer nada. Tenha paciência comigo. No ano passado, de acordo com a FAO, cinco milhões de crianças em todo o mundo morreram de fome (além de 162 milhões desnutridas/”stunted” e 51 milhões extremamente desnutridas/”wasted”). Isso é 200 vezes mais pessoas do que morreram até agora de Covid-19, mas nenhum governo declarou estado de emergência ou pediu que alterássemos radicalmente nosso modo de vida para salvá-las. Também não vemos um nível comparável de alarme e ação em torno do suicídio — a mera ponta de um iceberg de desespero e depressão — que mata mais de um milhão de pessoas por ano em todo o mundo e 50.000 nos EUA. Ou overdoses de medicamentos, que matam 70.000 nos EUA, a epidemia de auto-imunidade/“autoimmunity epidemic”, que afeta 23,5 milhões (número do NIH) a 50 milhões (AARDA), ou obesidade, que afeta mais de 100 milhões. Por que, aliás, não estamos loucos tentando evitar o armageddon nuclear ou o colapso ecológico, mas, pelo contrário, buscamos opções que ampliam esses muito perigos?


Por favor, o ponto aqui não é que já que não mudamos nossa vidas para impedir que as crianças passem fome, por isso também não devemos alterá-las pelo Covid. É o contrário: se podemos mudar tão radicalmente para o Covid-19, podemos fazê-lo também para essas outras condições. Vamos nos perguntar por que somos capazes de unificar nossa vontade coletiva para conter esse vírus, mas não para enfrentar outras ameaças graves à humanidade. Por que, até agora, a sociedade está tão paralisada em sua trajetória existente?


A resposta é reveladora. Diante da fome no mundo, vício, auto-imunidade, suicídio ou colapso ecológico, nós, como sociedade, não sabemos o que fazer. Nossas respostas à crise, todas com alguma versão de controle, não são muito eficazes para lidar com essas condições. Agora vem uma epidemia contagiosa e, finalmente, podemos entrar em ação. É uma crise para a qual o controle funciona: quarentenas, bloqueios, isolamento, lavagem das mãos; controle de movimento, controle de informações, controle de nossos corpos. Isso faz do Covid um receptáculo conveniente para nossos medos incipientes, um lugar para canalizar nosso crescente sentimento de desamparo diante das mudanças que dominam o mundo. O Covid-19 é uma ameaça que sabemos como enfrentar. Ao contrário de tantos outros medos, o Covid-19 oferece um plano.


As instituições tradicionais da nossa civilização são cada vez mais inaptas para enfrentar os desafios do nosso tempo. Como eles aceitam um desafio que finalmente podem enfrentar. Quão ansiosos eles estão em adotá-lo como uma crise primordial. Como naturalmente seus sistemas de gestão de informações selecionam os retratos mais alarmantes dele. Como é fácil o público entrar em pânico, abraçando uma ameaça que as autoridades podem lidar como representante para as várias ameaças indescritíveis que não conseguem.

Hoje, a maioria dos nossos desafios não sucumbe mais à força. Nossos antibióticos e cirurgias não conseguem atender às crescentes crises de saúde de autoimunidade, dependência e obesidade. Nossas armas e bombas, construídas para conquistar exércitos, são inúteis para apagar o ódio no exterior ou manter a violência doméstica fora de nossas casas. Nossa polícia e prisões não podem curar as condições de reprodução do crime. Nossos pesticidas não podem restaurar o solo arruinado. Covid-19 nos lembra os bons e velhos tempos em que os desafios das doenças infecciosas sucumbiam à medicina e à higiene modernas, ao mesmo tempo em que os nazistas sucumbiam à máquina de guerra, e a própria natureza sucumbia, ou ao que parecia, à conquista e melhoria tecnológica. Recorda os dias em que nossas armas funcionavam e o mundo parecia realmente estar melhorando com cada tecnologia de controle.


Que tipo de problema sucumbe à dominação e controle? O tipo causado por algo de fora, algum Outro. Quando a causa do problema é algo nosso, como falta de moradia ou desigualdade, dependência ou obesidade, não há nada contra o que lutar. Podemos tentar instalar um inimigo, culpando, por exemplo, os bilionários, Vladimir Putin ou o Diabo, mas aí perdemos informações importantes, como as condições que permitem que os bilionários (ou vírus) possam se replicar.


Se há algo em que nossa civilização é boa, é combater um inimigo. Adoramos oportunidades para fazer aquilo que somos bons, que comprova a validade de nossas tecnologias, sistemas e visão de mundo. E assim, fabricamos inimigos, articulamos problemas como crime, terrorismo e doença em termos de nós versus eles e mobilizamos nossas energias coletivas para os empreendimentos que podem ser vistos dessa maneira. Assim, destacamos o Covid-19 como um chamado às armas, reorganizando a sociedade como se fosse um esforço de guerra, enquanto tratamos como normal a possibilidade de armageddon nuclear, colapso ecológico e cinco milhões de crianças morrendo de fome.


A Narrativa da Conspiração


Como o Covid-19 parece justificar tantos itens da lista de desejos totalitária, há quem acredite que seja um jogo deliberado de poder. Não é meu objetivo promover essa teoria nem desmerecê-la, embora eu ofereça alguns meta comentários. Primeiro, uma breve visão geral.


As teorias (existem muitas variantes) falam sobre o Evento 201 (patrocinado pela Gates Foundation, CIA etc. em setembro passado) e um white paper da Rockefeller Foundation de 2010 detalhando um cenário chamado “Lockstep”, ambos os quais descrevem a resposta autoritária a uma pandemia hipotética. Eles observam que a infraestrutura, a tecnologia e a estrutura legislativa da lei marcial estão em preparação há muitos anos. Tudo o que era necessário, dizem eles, era uma maneira de fazer o público abraçá-la, e agora a oportunidade chegou. Independentemente de os controles atuais serem permanentes, um precedente está sendo definido para:


. O rastreamento dos movimentos das pessoas o tempo todo (por conta do coronavírus)


. A suspensão da liberdade de reunião (por conta do coronavírus)


. O policiamento militar de civis (por conta do coronavírus)


. Detenção extrajudicial e indefinida (quarentena, por conta do coronavírus)


. A proibição de dinheiro (por conta do coronavírus)


. Censura da Internet (para combater a desinformação, por conta do coronavírus)


. Vacinação compulsória e outros tratamentos médicos, estabelecendo a soberania do estado sobre nossos corpos (por conta do coronavírus)


. A classificação de todas as atividades e destinos em expressamente permitido e expressamente proibido (você pode deixar sua casa por isso, mas não por isso), eliminando a zona cinzenta não policiada e não jurídica. Essa totalidade é a própria essência do totalitarismo. Necessário agora, porém, porque, bem, por conta do coronavírus.


Este é um material riquíssimo para teorias da conspiração. É possível que uma dessas teorias seja verdadeira; no entanto, a mesma progressão de eventos poderia se desdobrar de uma inclinação sistêmica inconsciente em direção a um controle cada vez maior. De onde vem essa inclinação? É tecido no DNA da civilização. Por milênios, a civilização (em oposição às culturas tradicionais de pequena escala) entendeu o progresso como uma questão de estender o controle que tem do mundo: domesticando o selvagem, conquistando os bárbaros, dominando as forças da natureza e ordenando a sociedade de acordo com a lei e a razão. A ascensão do controle acelerou-se com a Revolução Científica, que lançou o “progresso” a novas alturas: a ordenação da realidade em categorias e quantidades objetivas e o domínio da materialidade com a tecnologia. Finalmente, as ciências sociais prometeram usar os mesmos meios e métodos para cumprir a ambição (que remonta a Platão e Confúcio) de criar uma sociedade perfeita.


Aqueles que administram a civilização darão boas vindas, portanto, a qualquer oportunidade de fortalecer seu controle, pois, afinal, está a serviço de uma grande visão do destino humano: o mundo perfeitamente ordenado, no qual doenças, crimes, pobreza e talvez o próprio sofrimento podem ser projetados para fora de existência. Não são necessários motivos nefastos. É claro que eles gostariam de seguir todo mundo — tudo isso para garantir o bem comum. Para eles, o Covid-19 mostra como isso é necessário. “Podemos nos dar o direito de liberdades democráticas à luz do coronavírus?” eles perguntam. “Devemos agora, por necessidade, sacrificar aqueles por nossa própria segurança?” É uma detenção familiar, pois acompanhou outras crises no passado, como o 11 de setembro.


Para refazer uma metáfora comum, imagine um homem com um martelo, andando à procura de um motivo para usá-lo. De repente, ele vê um prego meio solto. Ele está procurando um prego há muito tempo, batendo em parafusos e porcas e sem conseguir muito. Ele habita uma visão de mundo em que os martelos são as melhores ferramentas, e o mundo pode ser melhorado batendo nos pregos. E aqui está um prego! Podemos suspeitar que em sua ânsia ele tenha colocado o prego lá, mas isso pouco importa. Talvez isso nem seja um prego, mas se assemelha a um o suficiente para começar a bater. Quando a ferramenta estiver pronta, surgirá uma oportunidade para usá-la.


E acrescentarei, para aqueles que tendem a duvidar das autoridades, talvez desta vez seja realmente um prego. Nesse caso, o martelo é a ferramenta certa — e o princípio do martelo emergirá mais forte, pronto para o parafuso, o botão, o clipe e o rasgo.


De qualquer maneira, o problema com o qual lidamos aqui é muito mais profundo do que o de derrubar um círculo maligno de Illuminati. Mesmo que existam, dada a inclinação da civilização, a mesma tendência persistiria sem eles, ou surgiriam novos Illuminati para assumir as funções dos antigos.


Verdadeiro ou falso, a idéia de que a epidemia é uma trama monstruosa perpetrada por malfeitores sobre o público não está muito longe da mentalidade de encontrar o patógeno. É a mentalidade das cruzadas, uma mentalidade de guerra. Ela localiza a fonte de uma doença sociopolítica em um patógeno contra o qual podemos lutar, um vitimizador separado de nós mesmos. Arrisca ignorar as condições que tornam a sociedade terreno fértil para a conspiração. Quer esse solo ter sido semeado deliberadamente ou pelo vento é, para mim, uma questão secundária.


O que vou dizer a seguir é relevante, seja o Covid-19 um arma biológica geneticamente modificada, relacionado à implantação do 5G, sendo usado para impedir a “divulgação”, seja um cavalo de Tróia para o governo mundial totalitário, seja mais mortal do que nos foi dito, seja menos mortal do que nos foi dito, originou-se em um biolaboratório de Wuhan, originou-se em Fort Detrick, ou seja exatamente como o CDC (Centro de controle e prevenção de doenças nos EUA) e a OMS têm nos dito. Isso se aplica mesmo que todos estejam totalmente errados sobre o papel do vírus SARS-CoV-2 na atual epidemia. Tenho minhas opiniões, mas se há uma coisa que aprendi ao longo desta emergência é que realmente não sei o que está acontecendo. Não vejo como alguém possa, em meio a uma série de notícias, fake news, rumores, informações suprimidas, teorias da conspiração, propaganda e narrativas politizadas que enchem a Internet. Eu gostaria que muito mais pessoas aceitassem não saber. Eu digo isso tanto para aqueles que adotam a narrativa dominante quanto para aqueles que adotam as dissidentes. Que informações podemos estar bloqueando para manter a integridade de nossos pontos de vista? Sejamos humildes em nossas crenças: é uma questão de vida ou morte.


A guerra contra a morte


Meu filho de 7 anos de idade não vê ou brinca com outra criança há duas semanas. Milhões de outros estão no mesmo barco. A maioria concorda que um mês sem interação social para todas essas crianças é um sacrifício razoável para salvar um milhão de vidas. Mas que tal salvar 100.000 vidas? E se o sacrifício não durar um mês, mas um ano? Cinco anos? Pessoas diferentes terão opiniões diferentes sobre isso, de acordo com seus valores subjacentes.

Vamos substituir as perguntas anteriores por algo mais pessoal, que penetra o pensamento utilitário desumano que transforma pessoas em estatísticas e sacrifica algumas delas por outra coisa. A pergunta relevante para mim é: eu pediria a todas as crianças do país que deixassem de jogar por uma temporada, se isso reduzisse o risco de minha mãe morrer ou, por que não, meu próprio risco? Ou eu poderia perguntar: decretaria o fim dos abraços e apertos de mão humanos, se isso salvasse minha própria vida? Isso não desvaloriza a vida da minha mãe ou a minha, ambas preciosas. Sou grato por todos os dias que ela ainda está conosco. Mas essas perguntas trazem questões profundas. Qual é o caminho certo para viver? Qual é o caminho certo para morrer?


A resposta para essas perguntas, seja feita em nome de si mesmo ou em nome da sociedade em geral, depende de como vemos a morte e de quanto valorizamos a brincadeira, o toque e a união, juntamente com as liberdades civis e a liberdade pessoal. Não existe uma fórmula fácil para equilibrar esses valores.


Ao longo da minha vida, vi a sociedade enfatizar cada vez mais a segurança, a proteção e a redução de riscos. Isso afetou especialmente a infância: quando menino, era normal perambularmos até uma milha para longe de casa sem supervisão — comportamento que daria aos pais uma visita dos Serviços de Proteção à Criança hoje. Também se manifesta na forma de luvas de látex para mais e mais profissões; desinfetante para as mãos em todos os lugares; edifícios escolares trancados, protegidos e vigiados; intensificação da segurança nos aeroportos e nas fronteiras; maior conscientização sobre responsabilidades legais e de seguros; detectores de metal e revistas antes de entrar em muitas arenas esportivas e prédios públicos, e assim por diante. Por escrito, assume a forma do estado de segurança.

O mantra “segurança em primeiro lugar” vem de um sistema de valores que prioriza a sobrevivência e deprecia outros valores, como diversão, aventura, brincadeira e o desafio dos limites. Outras culturas tinham prioridades diferentes. Por exemplo, muitas culturas tradicionais e indígenas são muito menos protetoras com as crianças, como documentado no clássico de Jean Liedloff, The Continuum Concept. Eles lhes permitem riscos e responsabilidades que pareceriam loucos para a maioria das pessoas modernas, acreditando que isso é necessário para que as crianças desenvolvam autoconfiança e bom senso. Penso que a maioria das pessoas modernas, especialmente as mais jovens, retém parte dessa disposição inerente de sacrificar a segurança para viver a vida plenamente. A cultura circundante, no entanto, nos pressiona incansavelmente a viver com medo e construiu sistemas que incorporam o medo. Neles, permanecer seguro é extremamente importante. Por isso, temos um sistema médico no qual a maioria das decisões se baseia em cálculos de risco e no qual o pior resultado possível, marcando o fracasso final do médico, é a morte. No entanto, sabemos que a morte nos espera independentemente. Uma vida salva, na verdade, significa uma morte adiada.


O final triunfante do programa de controle da civilização seria triunfar sobre a própria morte. Na falta disso, a sociedade moderna se conforma com um fac-símile desse triunfo: negação ao invés de conquista. A nossa é uma sociedade de negação da morte, desde o esconderijo de cadáveres, até o fetiche pela juventude, até o armazenamento de idosos em casas de repouso. Até sua obsessão com dinheiro e propriedade — extensões do eu, como indica a palavra “minha” — expressa a ilusão de que o eu impermanente pode se tornar permanente através de seus apegos. Tudo isso é inevitável, dada a história do eu que a modernidade oferece: o indivíduo separado em um mundo do Outro. Cercado por concorrentes genéticos, sociais e econômicos, esse eu deve proteger e dominar para prosperar. Ele deve fazer todo o possível para impedir a morte, que (na história da separação) é uma aniquilação total. A ciência biológica até nos ensinou que nossa própria natureza é maximizar nossas chances de sobreviver e se reproduzir.


Perguntei a um amigo, um médico que passou algum tempo com os Q’ero no Peru, se os Q’ero (se pudessem) entubariam alguém para prolongar sua vida. “Claro que não”, disse ela. “Eles convocavam o xamã para ajudá-lo a morrer bem.” Morrer bem (o que não é necessariamente o mesmo que morrer sem dor) não faz parte do vocabulário médico de hoje. Não há registros hospitalares sobre se os pacientes morrem bem. Isso não seria considerado um resultado positivo. No mundo do eu separado, a morte é a catástrofe final.

Mas será? Considere esta perspectiva da Dra. Lissa Rankin: “Nem todos nós gostaríamos de estar em uma UTI, isolados de entes queridos com uma máquina respirando por nós, correndo o risco de morrer sozinhos — mesmo que isso signifique que eles possam aumentar suas chances de sobrevivência. Alguns de nós podem preferir ser mantidos nos braços dos entes queridos em casa, mesmo que isso signifique que chegou a nossa hora … Lembre-se, a morte não tem fim. A morte é ir para casa.”


Quando o eu é entendido como relacional, interdependente e até interexistente, ele sangra no outro e o outro sangra no eu. Entendendo o eu como um lócus de consciência em uma matriz de relacionamento, não se procura mais um inimigo como a chave para entender todos os problemas, mas procura-se desequilíbrios nos relacionamentos. A Guerra contra a Morte abre caminho para a busca de uma vida boa e plena, e vemos que o medo da morte é na verdade o medo da vida. Quanto da vida renunciaremos para permanecer seguros?

O totalitarismo — a perfeição do controle — é o produto final inevitável da mitologia do eu separado. O que mais, além de uma ameaça à vida, como uma guerra, mereceria controle total? Assim, Orwell identificou a guerra perpétua como um componente crucial do governo do Partido.


No contexto do programa de controle, negação da morte e do eu separado, a suposição de que as políticas públicas devem procurar minimizar o número de mortes está quase fora de questão, uma meta à qual estão subordinados outros valores, como brincadeira, liberdade etc. O Covid-19 oferece uma oportunidade para ampliar essa visão. Sim, vamos manter a vida sagrada, mais sagrada do que nunca. A morte nos ensina isso. Consideremos cada pessoa, jovem ou velha, doente ou boa, como o ser sagrado, precioso e amado que é. E no círculo de nossos corações, vamos abrir espaço para outros valores sagrados também. Manter a vida sagrada não é apenas viver por muito tempo, é viver bem, correto e plenamente.


Como todo medo, o medo ao redor do coronavírus sugere o que pode estar além dele. Quem experimentou a morte de alguém próximo sabe que a morte é um portal para o amor. Covid-19 elevou a morte a destaque na consciência de uma sociedade que a nega. Do outro lado do medo, podemos ver o amor que a morte libera. Deixe derramar. Deixe saturar o solo de nossa cultura e encher seus aquíferos, de modo a penetrar nas fendas de nossas instituições, sistemas e hábitos. Alguns destes podem morrer também.


Em que mundo viveremos?


Quanto de vida queremos sacrificar no altar de segurança? Se isso nos mantém mais seguros, queremos viver em um mundo onde os seres humanos nunca se reúnem? Queremos usar máscaras em público o tempo todo? Queremos ser examinados clinicamente toda vez que viajamos se isso salvar um número de vidas por ano? Estamos dispostos a aceitar a medicalização da vida em geral, entregando a soberania final sobre nossos corpos às autoridades médicas (conforme selecionadas pelas políticas)? Queremos que todo evento seja virtual? Quanto estamos dispostos a viver com medo?


O Covid-19 acabará por diminuir, mas a ameaça de doenças infecciosas é permanente. Nossa resposta a isso define um caminho para o futuro. A vida pública, a vida comunitária, a vida de fisicalidade compartilhada diminuiu ao longo de várias gerações. Em vez de fazer compras nas lojas, entregam as coisas em nossas casas. Em vez de grupos de crianças brincando lá fora, temos encontros marcados para brincadeiras e aventuras digitais. Em vez da praça pública, temos o fórum online. Queremos continuar a nos isolar ainda mais um do outro e do mundo?


Não é difícil imaginar, especialmente se o distanciamento social for bem-sucedido, que o Covid-19 persista além dos 18 meses que nos dizem que esperam que ele siga seu curso. Não é difícil imaginar que novos vírus surgirão durante esse período. Não é difícil imaginar que medidas de emergência se tornem normais (para evitar a possibilidade de outro surto), assim como o estado de emergência declarado após o 11 de setembro ainda está em vigor hoje. Não é difícil imaginar que (como nos dizem) a reinfecção seja possível, então a doença nunca seguirá seu curso. Isso significa que as mudanças temporárias em nosso modo de vida podem se tornar permanentes.


Para reduzir o risco de outra pandemia, escolheremos viver em uma sociedade sem abraços, apertos de mão e cumprimentos, para sempre? Escolheremos viver em uma sociedade em que não mais nos reuniremos em massa? O concerto, a competição esportiva e o festival serão coisa do passado? As crianças não brincam mais com outras crianças? Todo contato humano deve ser mediado por computadores e máscaras? Sem aulas de dança, sem aulas de karatê, sem mais conferências, sem mais igrejas? A redução da morte é o padrão pelo qual medir o progresso? O avanço humano significa separação? Esse é o futuro?


A mesma pergunta se aplica às ferramentas administrativas necessárias para controlar o movimento de pessoas e o fluxo de informações. No momento em que escrevo, todo o país está caminhando para o lockdown. Em alguns países, é necessário imprimir um formulário em um site do governo para sair de casa. Isso me lembra a escola, onde a localização de uma pessoa deve ser autorizada o tempo todo. Ou da prisão. Prevemos um futuro de passes eletrônicos, um sistema em que a liberdade de movimento é governada pelos administradores estaduais e seus softwares o tempo todo, permanentemente? Onde cada movimento é rastreado, permitido ou proibido? E, para nossa proteção, onde informações que ameaçam nossa saúde (como decidido novamente por várias autoridades) são censuradas para nosso próprio bem? Em face de uma emergência, como um estado de guerra, aceitamos essas restrições e renunciamos temporariamente às nossas liberdades. Semelhante ao 11 de setembro, o Covid-19 supera todas as objeções.


Pela primeira vez na história, existem meios tecnológicos para realizar essa visão, pelo menos no mundo desenvolvido (por exemplo, usando dados de localização de telefones celulares para reforçar o distanciamento social; veja também aqui). Após uma transição conturbada, poderíamos viver em uma sociedade onde quase toda a vida acontece online: compras, reuniões, entretenimento, socialização, trabalho e até namoro. É isso que nós queremos? Quantas vidas salvas vale isso?


Estou certo de que muitos dos controles em vigor hoje serão parcialmente relaxados em alguns meses. Parcialmente relaxado, mas pronto. Enquanto as doenças infecciosas permanecerem conosco, é provável que sejam impostas novamente no futuro ou sejam autoimpostas na forma de hábitos. Como Deborah Tannen diz, contribuindo para um artigo do site Politico sobre como o coronavírus mudará o mundo permanentemente: ‘Sabemos agora que tocar em coisas, estar com outras pessoas e respirar o ar em um espaço fechado pode ser arriscado … Pode se tornar nossa natureza recuar diante de um aperto de mãos ou de toques em nossos rostos — e todos podemos ser herdeiros do TOC em toda a sociedade, pois nenhum de nós pode parar de lavar as mãos.” Depois de milhares de anos, milhões de anos, de toque, contato e união, o auge do progresso humano é que cessamos essas atividades porque são muito arriscadas?


Vida é Comunidade


O paradoxo do programa de controle é que seu progresso raramente nos aproxima de seu objetivo. Apesar dos sistemas de segurança em quase todas as casas da classe média alta, as pessoas não são menos ansiosas ou inseguras do que eram uma geração atrás. Apesar de medidas de segurança elaboradas, as escolas não estão vendo menos tiroteios em massa. Apesar do progresso fenomenal na tecnologia médica, as pessoas se tornaram menos saudáveis ​​nos últimos trinta anos, na medida em que se proliferam doenças crônicas e a expectativa de vida estagna e, nos EUA e na Grã-Bretanha, começaram a declinar.


As medidas que estão sendo instituídas para controlar o Covid-19 também podem acabar causando mais sofrimento e morte do que previnem. Minimizar mortes significa minimizar as mortes que sabemos prever e medir. É impossível medir as mortes adicionais que podem advir da depressão induzida pelo isolamento, por exemplo, ou o desespero causado pelo desemprego, ou a imunidade reduzida e deterioração da saúde que o medo crônico pode causar. Estudos sugerem que a solidão e a falta de contato social aumentam a inflamação, a depressão e a demência. Segundo Lissa Rankin, M.D., a poluição do ar aumenta o risco de morrer em 6%, a obesidade em 23%, o abuso de álcool em 37% e a solidão em 45%.


Outro perigo que está fora dos registros é a deterioração da imunidade causada por excesso de higiene e distanciamento. Não é apenas o contato social que é necessário para a saúde, mas também o contato com o mundo microbiano. De um modo geral, os micróbios não são nossos inimigos, são nossos aliados na saúde. Um bioma intestinal diverso, compreendendo bactérias, vírus, leveduras e outros organismos, é essencial para um sistema imunológico que funcione bem, e sua diversidade é mantida através do contato com outras pessoas e com o mundo da vida. Lavagem excessiva das mãos, uso excessivo de antibióticos, limpeza asséptica e falta de contato humano podem fazer mais mal do que bem. As alergias e distúrbios auto-imunes resultantes podem ser piores que as doenças infecciosas que eles substituem. Social e biologicamente, a saúde vem da comunidade. A vida não prospera em isolamento.


Ver o mundo em termos de nós versus eles nos cega para a realidade de que vida e saúde acontecem em comunidade. Para dar o exemplo de doenças infecciosas, deixamos de olhar além do patógeno maligno e perguntamos: Qual é o papel dos vírus no microbioma? (Veja também aqui) Quais são as condições do corpo sob as quais os vírus nocivos proliferam? Por que algumas pessoas têm sintomas leves e outras graves (além da não-explicação abrangente de “baixa resistência”)? Que papel positivo podem ter gripes, resfriados e outras doenças não letais na manutenção da saúde?


O pensamento de guerra contra germes traz resultados semelhantes aos da Guerra ao Terrorismo, Guerra ao Crime, Guerra às Ervas Daninhas e às intermináveis ​​guerras que lutamos política e interpessoalmente. Primeiro, gera guerra sem fim; segundo, desvia a atenção das condições que geram doenças, terrorismo, crime, ervas daninhas e o resto.


Apesar da alegação perene dos políticos de que eles perseguem a guerra pelo bem da paz, a guerra inevitavelmente gera mais guerra. Bombardear países para matar terroristas não apenas ignora as condições básicas do terrorismo, como também agrava essas condições. Prender criminosos não apenas ignora as condições que geram o crime, mas também cria essas condições quando rompe famílias e comunidades e acultura os encarcerados à criminalidade. E regimes de antibióticos, vacinas, antivirais e outros medicamentos causam estragos na ecologia do corpo, que é o fundamento de uma forte imunidade. Fora do corpo, as massivas campanhas de pulverização provocadas pelo zika, dengue e agora Covid-19 vão causar danos incalculáveis ​​à ecologia da natureza. Alguém já pensou em quais serão os efeitos no ecossistema quando o enchermos com compostos antivirais? Essa política (que foi implementada em vários lugares na China e na Índia) só pode ser pensada a partir da mentalidade da separação, que não entende que os vírus são parte integrante da rede da vida.


Para entender o ponto sobre as condições que geram as questões que vivemos, considere algumas estatísticas de mortalidade da Itália (de seu Instituto Nacional de Saúde), com base em uma análise de centenas de fatalidades do Covid-19. Dos analisados, menos de 1% estavam livres de graves condições crônicas de saúde. Cerca de 75% sofriam de hipertensão, 35% de diabetes, 33% de isquemia cardíaca, 24% de fibrilação atrial, 18% de baixa função renal, além de outras condições que eu não conseguia decifrar no relatório italiano. Quase metade dos mortos tinha três ou mais dessas patologias graves. Os americanos, afetados pela obesidade, diabetes e outras doenças crônicas, são pelo menos tão vulneráveis ​​quanto os italianos. Deveríamos culpar o vírus então (que matou poucas pessoas saudáveis) ou devemos culpar a saúde precária subjacente? Aqui, novamente, a analogia da corda esticada se aplica. Milhões de pessoas no mundo moderno estão em um estado precário de saúde, apenas esperando por algo que normalmente seria trivial para enviá-las ao limite. É claro que, a curto prazo, queremos salvar suas vidas; o perigo é que nos perdemos em uma sucessão interminável de prazos curtos, combatendo uma doença infecciosa após outra e nunca enfrentando as condições básicas que tornam as pessoas tão vulneráveis. Esse é um problema muito mais difícil, porque essas condições não mudam via combate. Não há patógeno que causa diabetes ou obesidade, dependência, depressão ou TEPT. Suas causas não são um Outro, nenhum vírus se separa de nós mesmos e nós somos suas vítimas.


Mesmo em doenças como o Covid-19, nas quais podemos nomear um vírus patogênico, as coisas não são tão simples quanto uma guerra entre vírus e vítima. Existe uma alternativa para a teoria germinativa da doença que mantém os germes como parte de um processo maior. Quando as condições são adequadas, elas se multiplicam no corpo, às vezes matando o hospedeiro, mas também potencialmente, melhorando as condições que os acomodavam, por exemplo, limpando detritos tóxicos acumulados por meio da secreção de muco ou (metaforicamente falando) queimando-os com febre. Às vezes a chamada “teoria do terreno”, diz que os germes são mais sintomas do que causa de doença. Como um meme explica: “Seu peixe está doente. Teoria dos germes: isole os peixes. Teoria do terreno: limpe o tanque. ”


Uma certa esquizofrenia afeta a cultura moderna da saúde. Por um lado, há um crescente movimento de bem-estar que abrange a medicina alternativa e holística. Defende ervas, meditação e yoga para aumentar a imunidade. Valida as dimensões emocionais e espirituais da saúde, como o poder das atitudes e crenças de adoecer ou curar. Tudo isso parece ter desaparecido sob o tsunami de Covid, quando a sociedade adota a antiga ortodoxia.

Um caso em questão: os acupunturistas da Califórnia foram forçados a fechar, sendo considerados “não essenciais”. Isso é perfeitamente compreensível da perspectiva da virologia convencional. Mas como observou um acupunturista no Facebook: “E o meu paciente com quem estou trabalhando para sair dos opióides devido à dor nas costas? Ele terá que começar a usá-los novamente.” Da visão de mundo das autoridades médicas, modalidades alternativas, interação social, aulas de ioga, suplementos etc. são frívolas quando se trata de doenças reais causadas por vírus reais. Eles são relegados a um reino etérico de “bem-estar” diante de uma crise. O ressurgimento da ortodoxia sob o Covid-19 é tão intenso que qualquer coisa remotamente não convencional, como a vitamina C intravenosa, ficou completamente fora de questão nos Estados Unidos até dois dias atrás (ainda existem muitos artigos que desmascaram o “mito” de que a vitamina C pode ajudar a combater o Covid-19). Também não ouvi o CDC evangelizar os benefícios do extrato de sabugueiro, cogumelos medicinais, redução da ingestão de açúcar, NAC (N-acetil L-cisteína), astragalus ou vitamina D. Essas não são apenas especulações moles sobre “bem-estar”, mas são apoiadas por extensa pesquisa e explicações fisiológicas. Por exemplo, demonstrou-se que o NAC (informações gerais, estudo duplo-cego controlado por placebo) reduz radicalmente a incidência e a gravidade dos sintomas em doenças semelhantes à gripe.


Como indicam as estatísticas que ofereci anteriormente sobre autoimunidade, obesidade etc., os Estados Unidos e o mundo moderno em geral estão enfrentando uma crise de saúde. Seria a resposta fazer o que estamos fazendo, apenas com mais disciplina? A resposta até agora ao Covid tem sido apostar mais ainda na ortodoxia e varrer práticas não convencionais e pontos de vista divergentes de lado. Outra resposta seria ampliar nossas lentes e examinar todo o sistema, incluindo quem paga por isso, como o acesso é concedido e como a pesquisa é financiada, mas também expandindo para incluir campos marginais como fitoterapia, medicina funcional e medicina energética. Talvez possamos aproveitar esta oportunidade para reavaliar as teorias predominantes de doenças, saúde e corpo. Sim, vamos proteger o peixe enjoado da melhor forma possível no momento, mas talvez da próxima vez não tenhamos que isolar e drogar tantos peixes, se pudermos limpar o tanque.


Não estou dizendo para você sair agora e comprar NAC ou qualquer outro suplemento, nem que, como sociedade, devamos mudar abruptamente nossa resposta, interromper imediatamente o distanciamento social e começar a tomar suplementos. Mas podemos usar a quebra do normal, essa pausa em uma encruzilhada, para escolher conscientemente qual caminho seguiremos: que tipo de sistema de saúde, que paradigma de saúde, que tipo de sociedade. Essa reavaliação já está ocorrendo, à medida que idéias como assistência médica gratuita universal nos EUA ganham novo impulso. E esse caminho também leva a encruzilhadas. Que tipo de assistência médica será universalizada? Será disponível ou obrigatório para todos — cada cidadão, um paciente, talvez com uma tatuagem invisível em código de barras, certificando que está atualizado com todas as vacinas e verificações obrigatórias. Depois, você pode ir para a escola, embarcar em um avião ou entrar em um restaurante. Este é um caminho para o futuro que está disponível para nós.

Outra opção está disponível agora também. Em vez de dobrar o controle, poderíamos finalmente abraçar os paradigmas e práticas holísticos que estavam esperando nas margens, esperando que o centro se dissolvesse para que, em nosso humilde estado, possamos trazê-los para o centro e construir um novo sistema ao redor deles.


A coroação


Há uma alternativa ao paraíso do controle perfeito que nossa civilização há tanto tempo persegue e que retrocede tão rápido quanto nosso progresso, como uma miragem no horizonte. Sim, podemos prosseguir como antes no caminho em direção a um isolamento maior, dominação e separação. Podemos normalizar níveis elevados de separação e controle, acreditar que são necessários para nos manter seguros e aceitar um mundo em que temos medo de estar próximos uns dos outros. Ou podemos tirar proveito dessa pausa, dessa quebra no normal, para entrar no caminho da reunião, do holismo, da restauração das conexões perdidas, do reparo da comunidade e do retorno à rede da vida.


Investimos na proteção do eu separado ou aceitamos o convite para um mundo em que todos nós estamos juntos nisso? Não é apenas na medicina que encontramos essa pergunta: ela nos visita politicamente, economicamente e também em nossas vidas pessoais. Tomemos, por exemplo, a questão da acumulação, que incorpora a idéia: “Não haverá o suficiente para todos, por isso vou garantir que haja o suficiente para mim”. Outra resposta pode ser: “Alguns não têm o suficiente, então vou compartilhar o que tenho com eles”. Devemos ser sobreviventes ou ajudantes? Para que serve a vida?


Em uma escala maior, as pessoas estão fazendo perguntas que até agora estavam escondidas nas margens ativistas. O que devemos fazer com os sem-teto? O que devemos fazer com as pessoas nas prisões? Nas favelas do Terceiro Mundo? O que devemos fazer com os desempregados? E todas as empregadas de hotéis, motoristas do Uber, encanadores e zeladores, motoristas de ônibus e caixas que não podem trabalhar em casa? E agora, finalmente, estão surgindo idéias como alívio da dívida estudantil e renda básica universal. “Como protegemos os suscetíveis ao Covid?” nos convida a “Como cuidamos de pessoas vulneráveis ​​em geral?”


Esse é o impulso que desperta em nós, independentemente das superficialidades de nossas opiniões sobre a gravidade, origem ou melhor política para resolver o Covid. Está dizendo, vamos levar a sério o cuidado um com o outro. Vamos lembrar como todos somos preciosos e como a vida é preciosa. Vamos fazer um inventário de nossa civilização, reduzi-la a seus esteios e ver se podemos construir uma civilização mais bonita.


À medida que o Covid desperta nossa compaixão, cada vez mais percebemos que não queremos voltar ao normal, tão carente dessa mesma compaixão. Agora temos a oportunidade de criar um novo normal, mais compassivo.


Há muitos sinais de que isso está acontecendo. O governo dos Estados Unidos, que há muito tempo parece cativo de interesses corporativos sem coração, liberou centenas de bilhões de dólares em pagamentos diretos às famílias. Donald Trump, não conhecido como um modelo de compaixão, colocou uma moratória nas execuções de hipotecas e despejos. Certamente pode-se ter uma visão cínica de ambos esses desenvolvimentos; no entanto, eles incorporam o princípio de cuidar dos vulneráveis.


Em todo o mundo, ouvimos histórias de solidariedade e cura. Um amigo descreveu o envio de US$100 para dez estrangeiros que estavam em extrema necessidade. Meu filho, que até alguns dias atrás trabalhava no Dunkin’ Donuts, disse que as pessoas estavam dando gorjetas cinco vezes mais altas que o usual — e são pessoas da classe trabalhadora, muitas delas caminhoneiros hispânicos, economicamente inseguros. Médicos, enfermeiros e “trabalhadores essenciais” de outras profissões arriscam suas vidas para servir o público.


Aqui estão mais alguns exemplos da erupção de amor e bondade, cortesia do ServiceSpace:


Talvez estejamos vivendo essa nova história. Imagine a força aérea italiana tocando Pavoratti, militares espanhóis prestando serviços e policiais de rua tocando violão — para inspirar. Empresas dando aumentos salariais inesperados. Canadenses iniciando “Kindness Mongering”. Uma criança de seis anos de idade, na Austrália, presenteando seu dinheiro da fada dos dentes, uma aluna da 8ª série no Japão fazendo 612 máscaras e universitários em todos os lugares comprando mantimentos para idosos. Cuba enviando um exército em “jalecos brancos” (médicos) para ajudar a Itália. Um proprietário que permite que os inquilinos fiquem sem aluguel, o poema de um padre irlandês se torna viral, ativistas deficientes produzindo desinfetante para as mãos. Imagine. Às vezes, uma crise espelha nosso impulso mais profundo — que sempre podemos responder com compaixão.


Como Rebecca Solnit descreve em seu maravilhoso livro A Paradise Built in Hell, o desastre geralmente libera solidariedade. Um mundo mais bonito brilha logo abaixo da superfície, oscilando sempre que os sistemas que o mantêm embaixo d’água afrouxam sua firmeza.


Durante muito tempo, nós, como coletivo, ficamos impotentes diante de uma sociedade sempre doentia. Seja a saúde em declínio, infra-estrutura em decomposição, depressão, suicídio, dependência, degradação ecológica ou concentração de riqueza, é fácil perceber os sintomas de mal-estar civilizacional no mundo desenvolvido, mas ficamos presos nos sistemas e padrões que os causam. Agora, a Covid nos presentou com um reset.

Um milhão de caminhos bifurcados estão diante de nós. A renda básica universal pode significar o fim da insegurança econômica e o florescimento da criatividade, à medida que milhões são libertados do trabalho que o Covid nos mostrou ser menos necessário do que pensávamos. Ou poderia significar, com a dizimação de pequenas empresas, a dependência do Estado por um valor que vem com condições rígidas. A crise poderia levar ao totalitarismo ou à solidariedade; a medicina obedecendo a leis de guerra, ou um renascimento holístico; maior medo do mundo microbiano ou maior resiliência na participação nele; normas permanentes de distanciamento social ou um desejo renovado de se unir.


O que pode nos guiar, como indivíduos e como sociedade, enquanto caminhamos no jardim de caminhos bifurcados? Em cada junção, podemos estar cientes de para onde seguimos: medo ou amor, autopreservação ou generosidade. Vamos viver com medo e construir uma sociedade baseada nele? Devemos viver para preservar nossos seres separados? Devemos usar a crise como uma arma contra nossos inimigos políticos? Essas não são perguntas do tipo tudo ou nada, medo ou amor. É que um próximo passo para o amor está diante de nós. Parece ousado, mas não imprudente. Valoriza a vida, enquanto aceita a morte. E confia que a cada passo o próximo se tornará visível.


Por favor, não pense que a escolha do amor sobre o medo pode ser realizada apenas através de um ato de vontade, e esse medo também pode ser conquistado como um vírus. O vírus que enfrentamos aqui é o medo, seja o medo do Covid-19 ou o medo da resposta totalitária, e esse vírus também tem seu terreno. O medo, juntamente com o vício, a depressão e uma série de males físicos, floresce em um terreno de separação e trauma: trauma herdado, trauma de infância, violência, guerra, abuso, negligência, vergonha, punição, pobreza e o trauma normalizado e silencioso que afeta quase todo mundo que vive em uma economia monetizada, que passa por uma escolarização moderna ou que vive sem comunidade ou conexão com o local. Esse terreno pode ser alterado pela cura do trauma em nível pessoal, pela mudança sistêmica em direção a uma sociedade mais compassiva e pela transformação da narrativa básica da separação: o eu separado em um mundo de outro, eu separado de você, a humanidade separada da natureza. Estar sozinho é um medo primordial, e a sociedade moderna nos deixou mais e mais sozinhos. Mas a hora da reunião é agora. Todo ato de compaixão, bondade, coragem ou generosidade nos cura da história da separação, porque assegura tanto ao ator quanto à testemunha que estão nisso juntos.


Concluirei invocando mais uma dimensão da relação entre humanos e vírus. Os vírus são parte integrante da evolução, não apenas dos humanos, mas de todos os eucariotos. Os vírus podem transferir o DNA de um organismo para outro, às vezes inserindo-o na linha germinativa (onde se torna herdável). Conhecido como transferência horizontal de genes, este é um mecanismo primário de evolução, permitindo que a vida evolua junto muito mais rápido do que é possível através de mutações aleatórias. Como Lynn Margulis disse uma vez, somos nossos vírus.


E agora deixe-me aventurar em território especulativo. Talvez as grandes doenças da civilização tenham acelerado nossa evolução biológica e cultural, fornecendo informações genéticas importantes e oferecendo iniciação individual e coletiva. A pandemia atual poderia ser exatamente isso? Novos códigos de RNA estão se espalhando de humano para humano, imbuindo-nos com novas informações genéticas. Ao mesmo tempo, estamos recebendo outros “códigos” esotéricos que se assemelham aos biológicos, interrompendo nossas narrativas e sistemas da mesma maneira que uma doença interrompe a fisiologia corporal. O fenômeno segue o modelo de iniciação: separação da normalidade, seguido por um dilema, colapso ou provação, seguido (se for para se completar) por reintegração e celebração.


Agora surge a pergunta: iniciação em quê? Qual é a natureza e o objetivo específicos dessa iniciação? O nome popular da pandemia oferece uma pista: coronavírus. Corona é uma coroa. “Nova pandemia de coronavírus” significa “uma nova coroação para todos”.

Já podemos sentir o poder de quem podemos nos tornar. Um verdadeiro ser soberano não corre com medo da vida ou da morte. Um verdadeiro ser soberano não domina e conquista (que é um arquétipo das sombras, o Tirano). O verdadeiro ser soberano serve ao povo, serve a vida e respeita a soberania de todas as pessoas. A coroação marca o surgimento do inconsciente na consciência, a cristalização do caos em ordem, a transcendência da compulsão em escolha. Nós nos tornamos os governantes daquilo que nos havia governado. A Nova Ordem Mundial que os teóricos da conspiração temem é uma sombra da possibilidade gloriosa disponível para seres soberanos. Não mais os vassalos do medo, podemos trazer ordem ao reino e construir uma sociedade intencional com base no amor que já brilha através das fendas do mundo da separação.

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