Assuma seu tamanho, nenhum milímetro a menos

A ponte de ida é estreita.

O passo sem presença traz consigo o risco de cair no velho.

Não me dei o luxo da distração.

As tábuas são frágeis, recomenda-se não levar bagagem.

Deixei na margem sonhos calcados em estruturas arenosas em mim, desejos colados nas máscaras que teimava em sustentar, por medo de ver meu próprio rosto sem filtro no espelho. Deixei os baús de segredos não revelados pra mim mesma e as malas de roupas que um dia voltariam a caber.


Pé ante pé, soltei no rio que corria abaixo medos, mentiras e culpabilizações. Ele gentilmente acolheu, em testemunho da crueza vivida.


Pedi ajuda de forças que não via. Nunca rezei tanto, vela acesa por meses.

Precisei de humildade pra chegar do outro lado.


E, com ela, assumir meu tamanho real.

Não aquele que eu queria ter, aquele que idealizava, mas o real: até onde a pele crua vai.


O idealizado não passaria pela ponte. Eu teria caído. E voltaria ao princípio, generosa que a vida é.


Aprendi sobre a liberdade de ocupar o próprio espaço. 


Cai o orgulho, o esforço pra ser maior, o medo de ser pequena demais, a exaustão de querer provar, a investida insone de deixar fechados os armários abarrotados de desejos simples e pouco invejáveis e de visões que preenchem o peito de ímpeto e medo. 


Quero fazer bolo de banana numa 4a feira a tarde.

Quero viver numa terra linda, fértil, encantada, com a família saudável e os afetos por perto.


Pra me permitir abandonar os planos megalomaníacos e ficar "só" com os reais, é preciso assumir e deixar ir também a idealização que fiz de mim mesma. Assumir meus desejos reais vem vindo como consequência de assumir meu próprio tamanho. Nenhum milímetro a mais, nenhum milímetro a menos.


O tamanho do eu é algo complexo de decifrar.


Levei uns anos de excesso de grandeza e ilusão de pequenez pra assumir-me inteira e o que realmente desejo. 


Hoje, enxergo que a vontade é de lareira com chá, conhecer um a um, aprofundar nos sorrisos e lágrimas de estar viva. Receber gente em casa e inventar algo gostoso com o que tem disponível na horta. Sol batendo na pele, passarinho no comedouro, conversas de verdade, pé na grama, gargalhadas e violão, crianças peladas correndo no jardim. Quero testemunhar transformações como o rio. 


E, se puder apoiar - como a ponte - pessoas a assumirem seus tamanhos, desejos, potências e medos, vou ser ainda mais feliz.


Desde que entrei nesse processo de assunção de quem sou e o que quero de forma radical, não esbarrei mais com o esforço. Tenho navegado novos mares por onde crio e atuo. Estou encontrando outra forma de viver, comer, amar, me mover, ler, tricotar, praticar e divulgar minha prática (eita coisa sedutora pras idealizações de nós mesmas!).


Assumir meu tamanho passa por assumir minhas potências e limitações, as forças e fraquezas, minha história, com todas as suas belezas e agruras. Reconhecer como tenho feito frente aos acontecimentos que surgem e como tenho criado outros tantos. Assumir meu tamanho passa por assumir quem sou e com quem quero estar. 


Tenho criado a partir daí. O que aprendi com as experiências que vivi? O que genuinamente quero? O que é inegociável para quem estou? O que não quero de jeito nenhum? Qual o tamanho das responsabilidades que desejo, preciso e posso assumir? Quanto tempo de trabalho quero ter? Quanto dinheiro é confortável e suficiente? Para quantas pessoas desejo abrir meu campo? Quanto faz sentido me expôr? Como desejo viver meus dias?


Percebo que, só de trazer essas respostas todas pra consciência, algo grande se move.


Tomo responsabilidade sobre minha vida, trago contenção pra minhas criações, palavreio meus desejos e, com isso tudo, coloco-os em movimento, sem esforço.

Assumir-se é muito.


Me sinto mais leve pras próximas pontes e mais íntima dos próximos rios.

E de cara mais lavada pra me enxergar.

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