Mãe, a invisível

Pela primeira vez, não me anseio. Essa é uma prática nova pra mim: o fazer sem pressa. É grandiosa essa travessia em minha linhagem. É também por ti, filha.


Na última década, vinha me identificando pelo fazer. Meu fazer precedia meu ser.


O último ano tem sido generoso em ensinos que visibilizam outros fazeres: os invisíveis.


Essa semana chorei ao me ver organizando, só, o quarto da bebê. Mesmo com alegria viva, era água triste que jorrava. Me sinto adentrando o reino das invisíveis.


Serei mãe,

colo,

teta,

enorme pra uma única pessoa,

fora de cena pras outras tantas.

Mãe, a invisível.


Por mim, por minha filha, pelo Todo, escolho adentrar essa caverna assombrosa, da que "não trabalha". Decidi com meu marido reduzir muito o trabalhar-gerar-renda desde o início da gestação até dezembro, quando estarei com 7 meses. A partir de então vou só chocar. Esse será meu muito honroso trabalho: gestar. E depois, maternar, por sabe-se lá quanto tempo.


Assombrosa na verdade é a invisibilização do trabalho-base para nossa existência: colocar gente no mundo com amor.


Me parece muito necessário, por mim e pelo momento de mundo, desinvestir na ideia de que o fazer pra fora é o que dignifica, constrói, honra. Toda uma lógica conquistadora, consumista e esvaziada de sentido baseada em produtificar dons, talentos e amor. E fazer pão, prosear com vizinho, acariciar as mãos enrugadas da avó, meditar, estar presente pra uma criança subindo árvore, cuidar do filho da comadre, escutar uma amiga em dor, parir bebê? E todo esse trabalho fora do mercado, que sustenta a vida, não é digno?


Respiro e ganho coragem de baixar a cabeça, entrar na gruta-vagina e reverenciar o feminino, o mistério, o invisível, o fazer pra dentro. Essa polaridade que me atrai e me aterroriza.


Sim, gestar, parir e maternar com amor, presença e inteireza pelo ato político, por Gaia, pela ideia de mudar o mundo através de uma cultura amorosa no seio familiar. Mas também porque quero viver isso. Porque meu corpo pede. Porque é onde o amor me leva. E isso, por si, já deveria ser suficiente.

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