Quero assumir minha verdade, mas o que vão pensar?


A decisão de ir morar no mato não foi bem uma decisão. Foi algo mais forte que eu, algo que foi surgindo dentro de mim como uma certeza irracional, me tomando de uma força extraordinária e, quando vi, os passos estavam sendo dados, um após o outro.


A cada novo passo, a vida ia me dando segurança para caminhar mais um pouco.


Algo me amedrontava nesse processo: e minha família? Meus pais, minhas irmãs, meu sobrinhos?


Como ficaria minha relação com eles morando mais longe? O que eles pensariam? Será que aprovariam essa escolha? Será que me julgariam? Achariam que eu estava ficando louca? Na verdade, o medo do julgamento não era só com a família, mas com todas as pessoas.


Como aprendi que os passos mais verdadeiros dão medo, caminhei com medo mesmo. E, em alguns momentos, me deparei com questionamentos dos outros. A família em si não criticou, pelo contrário (sou muito agradecida por isso). Mas amigos e conhecidos sim. Ouvi coisas como: “mas é a cidade que precisa do seu apoio, como assim você vai pro mato? Não acha egoísta de sua parte?”, ou “Mas como você vai ganhar dinheiro lá? Vai acabar precisando voltar pra cidade por falta de grana” e até “Ih, já vi tudo. Vai virar hippie, deixar de ter celular e computador e viver na sua bolha própria.”


Algumas provocações me movimentavam mais internamente do que outras. Eu tinha vontade de responder, convencer, retrucar. E isso era um sinal de que essas críticas, na verdade, me habitavam.


Fui percebendo que o medo do julgamento era algo que falava mais sobre mim do que sobre os outros. Uma parte minha estava julgando aquele passo. Uma parte criticava a minha própria escolha. E era com essa parte que eu precisava trabalhar. Não podia mudar o outro, só a mim mesma.


Fui trazendo essas vozes pra consciência e conversando com cada uma. Ouvi os julgamentos existentes dentro de mim com amorosidade. Dei espaço pra cada um deles e fui acalentando, aos poucos, as vozes internas que me criticavam. E, num diálogo interno, fui me entendendo melhor e transmutando as críticas internas.


Com isso, as críticas externas foram cessando, porque tudo que se manifesta fora é um reflexo do que se manifesta dentro. Autorresponsabilidade é mudar em si o que te incomoda fora de você. Sem essas vozes dentro, as vozes fora não apareciam mais. Eu deixei de atrair essas pessoas pra minha vida.


Aí a família foi passar uns dias lá no sítio.


Antes deles chegarem, eu estava nervosa. O que pensariam? A casa não é tão confortável… Será que a dispensa está cheia o suficiente? Será que minha mãe vai curtir cozinhar nessa bancada de madeira velha? Será que meu pai vai sentir falta de sombra na área externa? Será que vão gostar de estar aqui?


Chegaram.


Quanto amor! Quanta alegria por estarmos juntxs. Pudemos conviver como há tempos não fazíamos no corre-corre-vai-e-vem-tá-na-hora da cidade. Aprofundamos as relações, falamos de temas importantes, ficamos em silêncio, mergulhamos no rio, lemos, cozinhamos, lavamos, estivemos juntos em família, nos reconhecemos.


Não houveram críticas. Houve admiração e alegria pela escolha feita. Houve choro de felicidade. Porque eu estou inteira, feliz, realizada.


Mesmo a casa não sendo tão confortável, o jardim sem uma super sombra, a fogueira não pegando por conta da lenha úmida, a bancada da cozinha deixando a desejar.

Mesmo assim foi uma delícia. Porque eu estava em delícia interna por estar lá com eles. E eles idem.


A família é de onde viemos. É onde nossas maiores delícias e maiores dores se manifestam. Muitas vezes, queremos dar um passo significativo em nossas vidas e a pergunta “o que meus pais vão pensar” nos trava.


Estejam eles vivos ou não, perto de nós ou não, sejam eles conhecidos ou não, as figuras do pai e da mãe têm um poder grande em nossas decisões.


No fundo, o que eles querem de nós é que sejamos felizes. Às vezes eles têm suas próprias estratégias de felicidade. Acham que seremos felizes somente se fizermos assim ou assado. Mas, sabe, essas são as referências deles. Não são necessariamente as suas. Sim, eles têm mais experiência e precisam ser escutados e respeitados. Mas não precisamos seguir os caminhos que eles desejaram ou desenharam pra gente. Ás vezes fazemos isso inconscientemente e é preciso estar atento e seguir os caminhos mais verdadeiros que pulsam em nossos corações.


Desapegar do que você acha que eles acham que é o melhor pra você.


E se comprometer com o desejo ardente que te vive, observando as partes que ainda não acreditam que você pode realizar o que te faz bem.


Quando você está em paz, a paz se manifesta. Quando você está em alegria, alegria se manifesta.

Essa é uma jornada de vida. Não acredito em fórmulas mágicas, em passos específicos que vão fazer você ser feliz pra sempre. Acredito em uma jornada gradual, onde você vai se conhecendo, observando suas recusas inconscientes e se libertando delas dia a dia, pouco a pouco, vida a vida.


Que vivamos vidas autênticas para quem somos agora.

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