Silêncio e não ação como forma de ativismo

Oie! Se você me acompanha nas redes sociais, não está me vendo por lá nas últimas semanas. Pois é, precisei silenciar. Esse e-mail é um breve hiato nessa escolha, além de uma forma de buscar fazer sentido do que estou atravessando, na tentativa de te trazer reflexões nutritivas.


Tenho estudado sobre Budismo Tibetano, Psicologia Jungiana, Ecologia Profunda. Tenho observado a floração da mirra, o chão se enchendo de folhas, visitas de novos passarinhos. Cozinhando muito e aprendendo a tricotar. Acendo a lareira e perco a hora fazendo o fogo de televisão. Observo os pensamentos que me julgam pior do que quem "está produzido" e sinto no estômago o medo de ser esquecida. 


Percebo o impulso de postar um insight fresquinho no feed ou qualquer coisa bonita nos stories e, quando sustento a escolha de fazer pra dentro, sinto alívio em seguir presente, sem precisar de testemunhas para validar o que percebi naquele instante.


Além da relação próxima com os participantes do Transborda Híbrido (as inscrições seguem abertas! Mais informações no fim do e-mail) e as refeições diárias, nenhuma de minhas criações é pra fora de mim mesma. Estou em reabilitação do vício de fazer para fora. Estou descobrindo que estou sempre em criação. Às vezes, crio pra fora, outras, pra dentro. Nunca paro de criar.


Cada respiração é uma criação. Cada dia pode ser uma obra de arte, mesmo que seja um dia comum, com muita louça, vassoura, silêncio (e uma boa dose de embasbacamento com o que acontece em nosso país).


Pra mim, produzir conteúdo ou criar um novo projeto agora seria abortar um processo de vida. Tenho mais pra reunir antes de concluir. Qualquer conclusão agora é prematura. Quero honrar aquilo que a natureza me pede para mover. E ela diz: ainda não.


As folhas me sopram a necessidade de dar um mergulho mais profundo, onde não cabem as conclusões. O exercício é fortalecer ainda mais minha habilidade de estar confortável com as perguntas, sem querer correr para as respostas.


Estou esmeirada em conhecer as interrogações que correm por entre as veias.


Estou aprendendo que não sou eu a protagonista. A protagonista é a Grande Natureza, Gaia. Eu sou só canal. E se ela me pede pra pausar no agir externo, eu humildemente obedeço.


Reconheço o privilégio de poder pausar agora. Como disse minha amiga Sofia de Assunção, estamos (eu e ela) vivendo o privilégio do silêncio. Sei que essa escolha não está disponível para todos, mas sei também que está disponível para muitos que acreditam que não.


O silêncio e o não fazer podem ser uma forma de ativismo em tempo de consumismo de informação.


A ação prematura vem de um lugar de não confiança na Vida, de urgência, ansiedade, busca por reconhecimento, desconexão. E, se ela vem desse lugar, por mais aparentemente regenerativa que seja, está alimentando uma forma de viver que foi a que nos trouxe até esse ponto de insustentabilidade. 


Ouvi hoje mais cedo de Jeffrey Kiehl, analista Jungiano e cientista climático um ditado que diz que "A ferramenta certa usada pelo homem errado leva a destruição. A ferramenta errada usada pelo homem certo pode levar a criação."


Carl Gustav Jung, psiquiatra e psicoterapeuta suíço que fundou a psicologia analítica, contava com frequência a história do fazedor de chuva e pedia para que ela fosse passada adiante. Seguindo seu pedido, cá estou:

Houve uma terrível seca na parte da China onde vivia Richard Wilhelm (sinólogo, amigo de Jung e tradutor do I Ching).

Depois de as pessoas terem tentado em vão os meios conhecidos para fazer chegar a chuva, decidiram mandar buscar um fazedor de chuva. Isto interessou muito a Wilhelm que se preparou para estar lá quando o fazedor de chuva chegasse.

O homem veio numa carroça coberta, um pequeno velho ressequido, que fungava com uma repugnância evidente. Quando saiu da carroça, pediu que o deixassem sozinho numa pequena cabana em frente a aldeia; mesmo as suas refeições deviam ser deixadas no exterior, diante da porta.

Não se ouviu falar mais dele durante três dias. Depois disso, não somente choveu, mas nevou intensamente, o que nunca se tinha visto nessa época do ano.

Muito impressionado, Wilhelm procurou o fazedor de chuva na cabana e perguntou-lhe como podia ter feito chuva e mesmo neve. 

O fazedor respondeu: “Eu não fiz a neve; não sou responsável por isso”. Wilhelm insistiu: havia uma terrível seca até à sua vinda e depois, passados três dias, houve grande quantidade de neve. O fazedor de chuva respondeu: “Oh! Isso eu posso explicar. Veja, eu venho dum lugar onde as pessoas estão em ordem; estão em Tao; então o tempo também está em ordem. Mas chegando aqui, vi que as pessoas não estavam em ordem e também me contaminaram. Por esse motivo fiquei sozinho até estar de novo em Tao, e então, naturalmente, nevou”.


Assim como o fazedor de chuva, escolho agir desde um lugar alinhado, equilibrado, que confia na Vida e em seus desígnios. Escolho agir desde um lugar de centramento e serviço.

Se ajo a partir de uma sensação de desespero, escassez, pressa e ansiedade, estou alimentando essas qualidades no mundo. 


Então, por agora, sigo observante dos movimentos internos, acumulando vida, atenta para a boa hora de ofertar o que quer que tenha surgido por aqui.


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