Welcome to Kibbutz Lotan!


Um novo texto da série "revisitando o passado", onde publico textos que escrevi durante o período sabático que tirei entre 2011 e 2012 e depois do texto comento como os aprendizados vividos nesse tempo seguem me apoiando a criar uma vida e um trabalho que me tragam vida.


Hoje o texto é sobre minha chegada no Kibbutz Lotan, a primeira comunidade que visitei na minha vida, no meio do deserto israelense, onde praticam e estudam princípios da permacultura. Foi a primeira parada do período sabático, um tempo que dediquei a me conhecer e a conhecer outras formas de vida.


PS: eu mudei de lá pra cá, como todo ser humano. Algumas maneiras de escrever e visões de mundo já não refletem quem sou hoje. Escolhi deixar o texto original, honrando quem já fui.





Sentada num ponto de ônibus no meio do deserto.  Em 5 minutos, meus pés mostram sinais de desidratação intensa. E as moscas? As daqui picam como loucas! O som do silêncio é reconfortante e desconfortável ao mesmo tempo. Sol na cabeça, fator de proteção solar 50 is not enough.




Vem chegando uma van branca. Dentro dela, uma jovem com os pêlos faciais mais longos que já vi. A roupa, imunda. A pele, craquelada. No chão, uma mistura de palha e folhas secas. Welcome to Kibbutz Lotan.


Quanta aridez! Chão de areia, incríveis contruções feitas de lama, pouquíssimas sombras, boca seca, pedrões, pedras, pedrinhas, algumas “instalações” tenebrosas também feitas de lama.


“Carol, this is your dome. Dome number 10”. Aqui é onde você vai dormir e essa é com quem você vai dormir (não me lembro o nome dela, meleca!). Boas surpresas: ela tem o sorriso lindo, aberto. Me lembra a Iaci quando sorri. Os olhos carismáticos e grandes, enormes. Trabalha com crianças no Texas e acaba de chegar aqui. É minha veterana por 1 dia de diferença. O quarto é uma delícia. Arejado, com 2 colchões no chão, uma mesa, duas cadeiras e prateleiras suficientes para colocar minhas (muitas) coisas. Além do ar natural que circula (e viva a permacultura!), tem ar condicionado e ventilador. “É praquelas ondas de calor insuportáveis”, me diz meu monitor (que também não me lembro o nome, que vergonha!). Ele explica a melhor maneira de ligar o ar condicionado. Deve ser ligado junto com o ventilador, numa temperatura não muito baixa. Assim, gasta menos energia e o ventilador diminui a sensação térmica em até 3 graus Celsius.


E as good news não terminam por aí. Tenho 4 tomadas só pra mim! E wi-fi! Não poderia haver notícia melhor… E tem mais! (pareci aqueles canais de compra agora: “na compra de um ar condicionado, você ganha também um ventilador de teto!”) Parece que nosso quarto é o melhor do lugar. É o mais perto do banheiro (que merece uma explicação a parte – cenas dos próximos parágrafos) e o mais longe das cabras (o que significa mais silencioso e menos fedido).


Hora de um tour rápido, que mais me confundiu do que esclareceu:

Área de lazer dos voluntário do G.A. (Green Apprenticeship): onde toda 5ª  a noite se reúnem para atividades em conjunto.


Cozinha: se pegar fogo, essa é a chave do gás. Assim é ligado. Assim, desligado. Ligado, desligado, ligado, desligado.Aqui está o lixo para compostagem, aqui o lixo reciclável.


Banheiro: “essa parte é sempre constrangedora”, o monitor-com-nome-desconhecido me diz. Pra fazer

xixi, tem que mirar aqui. Coco, ali. (o vaso é dividido em 2 compartimentos, onde o da frente é o do xix e o de trás é do coco). Fez coco? Pega essa palha e joga em cima, com muito cuidado, para não cair na parte do xixi. Muito importante não misturar número 1 com número 2, senão o adubo fica inutilizável. (e quem é ruim de mira?)


Lavanderia: não entendi lhufas.


Biblioteca e sala de estudos do G.A.: o lugar mais arejado do pedaço. Alguns alunos, todo bem jovens e com seus respectivos lap tops. Ficarão aqui por 5 meses, mas não sei há quanto o programa começou.





Cruzamos com algumas pouquíssimas pessoas no caminho. Pouquíssimas. Assustadoramente pouquíssimas. Não sei onde se escondem, porque aparentemente moram 200 delas aqui.


De volta ao quarto, falamos sobre o Brasil. Ele não gostou do Rio porque não gosta de cidades. Aquela é a fronteira com o Líbano. Don´t cross it.  Beba muita água. Blá-blá-blá. Alguma pergunta?


Sim. E o trabalho?


Ah! Sim, o trabalho. Começamos ás 6AM, paramos 8.30 para o café, voltamos ás 9.30 e vamos até as 14.30. Almoço e descanso. Fica muito quente para se trabalhar. Você tem 6ª e sábado off. E a cada, dia, terá um trabalho diferente.


Sem rotina? Like it already.


Muita informação, não consigo ter uma opinião concreta ainda. Que bom…


Tudo muito novo. A little scarry, very exciting!


Sinto um medinho de não fit in, de não me “encaixar” nesse estilo de vida de areia nos pés, lama nas mãos, xixi compartimentado. Mas aí minha companheira de quarto me pergunta como vim parar aqui.


E eu conto na versão resumida (essa história fica pra um próximo post). Ela vai abrindo um sorriso e diz: “Um ano? Sozinha? Quanta coragem!”


Mas não me sinto corajosa. Inclusive, ás vezes me sinto paradoxalmente covarde. Como hoje no ônibus, vindo pra cá. O ponto final era em Eilat, mas eu pedi pro motorista me deixar antes, no ponto mais perto daqui. Lá pelas tantas, nada dele parar. Comecei a ficar preocupada: será que já passou? E se já passou? Vou ter que pegar um ônibus de volta para Tel Aviv e parar no ponto correto. Droga! Vou ter que gastar uma grana… enfim. A cabeça foi longe e eu passei uma meia hora no “falo com o motorista ou não falo?” Até que o senhor do meu lado percebeu minha aflição e me perguntou: “porque você não vai até lá falar com o motorista?” É, Carol, porque??? Medo de quê? De parecer chata e ansiosa? Bom, se o motorista pensar isso de mim, o problema é dele, não é? Fácil falar…