Há vida na morte: o que o luto nos ensina sobre o amor


A sabedoria em celebrar e lamentar ao mesmo tempo


Crédito: Estevão Andrade

Há cerca de 2 anos quase exatos perdi repentinamente uma das minhas melhores amigas, em um acidente de bicicleta. Meu chão desabou e, felizmente, pude atravessar o luto com outras dezenas de amigas-irmãs que escolheram olhar de frente para o que aquela morte movia em cada uma de nós individual e coletivamente.


Os meses que se seguiram foram uma espécie de portal para nós. Pudemos chorar de tristeza, sem medo, e gargalhar de amor, sem pudor. Poder sentir tão profundamente o luto foi um marco em nossas vidas.


Eu nunca achei que poderia viver a morte de uma pessoa tão amada dançando e sorrindo sem culpa.


Poder enlutar a morte da Fer verdadeiramente me ensinou sobre a potência de vida presente no luto. Pude lamentar sua morte e celebrar sua vida em igual proporção.

Com isso, aprendi muito sobre a importância de, durante processos de transformação, enlutar e agradecer, lamentar e celebrar ao mesmo tempo. A habilidade de sustentar essas duas possibilidades pode nos trazer muita potência de vida e criação, pois nos conecta à vida. Podemos, ao ter o luto em uma mão e a gratidão em outra, fazer transições que trazem mais vida para nossas vidas.


Nesse processo, foi unânime: quem escolheu atravessar o portal do luto com inteireza pôde vivenciar um ganho de sentido na vida e muitas coisas de transformaram desde então.

Poder lamentar e enlutar algo profundamente é sinal de nossa capacidade de amar. O luto é uma forma de expressão de que algo que é sagrado para você está em perigo. Sentir tristeza por algo que não está (mais) acontecendo é um indício de que aquilo é importante para você.


Se eu chorei a morte da Fer, é porque meu amor por ela me trazia (e ainda traz) muita alegria.


Se você se sente triste pela poluição das águas, é porque está conectada a elas.


Se lamenta não ter tempo para seus filhxs, é porque essa relação te importa muito.


Se enluta o fato de dedicar muita energia a algo que não faz sentido para você, é porque seu coração está te chamando a viver algo mais vivo.


É a perda de conexão que nos faz enlutar.


Enlutamos a diminuição da relação com algo sagrado.


E se há luto é porque há amor.


Se há amor, há energia de transformação.


A energia proveniente da capacidade de amar nos impulsiona a mudar. Se eu não amar meus filhxs profundamente, de onde vou tirar energia para mudar minha forma de trabalhar para ter mais tempo com eles? Se não amo as águas, como vou ter foco para mover projetos para protegê-las? Se não amo minha vida, como vou ter coragem de correr o risco transformar meu trabalho para me sentir mais viva?


O psicoterapeuta e escritor Francis Weller, especialista em luto, trouxe, em uma entrevista dada a Charles Eisentein (traduzida aqui), que "(o luto) mantém o coração tenro e flexível. Este é um jeito de desenvolver compaixão. Mas, além disso, o luto é uma forma de protesto. É uma maneira de dizer: “Eu me recuso a viver anonimamente e de forma pequena”. Então, se eu me engajo no meu luto isto significa que o que eu estou experimentando não é aceitável."


Acredito que nossa capacidade de enlutar traz transformações não só em nossas vidas individualmente, mas isso transborda na potência de transformar realidades comunitárias.


Precisamos sustentar nossa capacidade de sentir tristes e indignados com a situação do mundo para termos clareza das transformações que desejamos empreender.


Ao mesmo tempo, enquanto só enlutarmos, sem incluir nesse lamento o motivo pelo qual estamos tristes - a perda de conexão com algo sagrado -, temos pouca energia para transformar. Ficamos cínicos e amargos.


O amor energiza, nos faz conectar com o motivo de tudo.


A Fer se foi 2 semanas antes de fazer 30 anos. No dia de seu aniversário, depois de muitos rituais de despedida, fizemos uma festa com música da boa no meio da mata, onde dançamos livremente e gargalhamos muito, do jeito que ela gostava. Sim, teve choro e tristeza também. Mas a alegria estava muito presente. A gente dançou por amor. Porque aprendemos com a passagem dela que “é o amor que faz subir”.


Pudemos agradecer pela presença dela em nossas vidas, pela vida umas das outras, pela amizade, irmandade e conexão. E as relações se fortaleceram muito, como nunca antes. Perder uma amiga-irmã nos fez valorizar a conexão que temos com as outras amigas-irmãs.

Então precisamos caminhar com o luto e com a gratidão, transitando entre a indignação e a celebração. Os dois, juntos, ampliam nossa força de transformar a realidade.


Abrir espaço para o luto e para o lamento é também abrir espaço para a celebração e a gratidão, pois a porta que abrimos para uma emoção é a entrada para todas elas.


Há também o luto do que sabemos que precisa ficar para trás em nossas vidas para darmos espaço ao novo. Se você está passando por uma transição de vida, seja ela profissional, relacional, de estilo de vida ou de qualquer outra área em sua vida, deve estar percebendo um ciclo de vida-morte-vida acontecer.


Deixar um emprego confortável para abrir espaço para um trabalho com mais significado.


Deixar uma relação tóxica para abrir espaço para mais autoamor.


Deixar o botão soneca para abrir espaço para mais saúde.


Tanto o emprego confortável quanto o relacionamento tóxico quanto o botão soneca nos trazem coisas boas. Previsibilidade financeira, companhia, sono.


Em uma entrevista da Marie Forleo com a Elizabeth Gilbert , Liz fala sobre quando o amor de sua vida faleceu e, mesmo em meio a tristeza, ela pôde reconhecer que havia uma curiosidade sobre como seria sua vida a partir daquele momento. O que ela passaria a fazer, quem ela conheceria, para onde viajaria sem sua namorada?


Olhar a vida com curiosidade e não só com medo.


Porque vamos deixar esteios para trás, coisas que parece que nos estruturavam na vida. Vai dar medo, mas e se mudarmos o foco para a curiosidade e a animação do que está porvir? O que você vai criar depois de deixar para trás isso que está deixando? Que alegrias e boas surpresas vai viver?


Não é sobre fingir que o luto não está ali, mas sobre incluir nele a possibilidade de sentir-se vivificada pelo novo.


Toda morte é uma nova vida que chega.


Você pode estar, nesse momento, prestes a viver coisas que nunca viveu antes, experienciar novas emoções que ampliam a vida dentro de você, conhecer novas pessoas, aprender novas coisas, ser arrebatadx com o inesperado, receber presentes surpreendentes!


Que possamos enlutar e agradecer para transformar nossas realidades e nos conectarmos com a tristeza, a animação e curiosidade presentes nos processos de vida-morte-vida.


Trago aqui algumas perguntas que podem te apoiar a ter mais clareza sobre seu momento:


>> Pelo que você pode celebrar nesse momento em sua vida? O que te nutre e te energiza? Como você tem nutrido o que te nutre? Como pode nutrir ainda mais o que te nutre?


>> O que vc tem lamentado em sua vida? O que isso diz sobre o que é sagrado para você? Como você tem cuidado disso que é sagrado? Como pode aumentar a conexão com isso?


>> O que sente que precisa ficar para trás em sua vida?


>> E, pensando que essa morte de algo abre espaço para algo novo, pelo que se sente animadx nesse momento?


Vou adorar ouvir sobre suas celebrações e lamentos, para ampliar nossa conexão e consequentemente nossa capacidade de amar! Escreve aqui nos comentários?


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