a sensação de vazio que precede a criação

Aqui em casa passa um riacho. Ontem, parecia que havia secado em parte do percurso, mas logo ali na frente, ele retomava seu curso. Descobri que agora, no outono quase inverno, tempo de deixar ir, ele percorre um outro caminho.  Por alguns metros, corre um rio debaixo do rio.

Nesse momento, tem algo em nossos rios que parece ter secado. Nossas formas de criação já não são as mesmas. O entorno mudou e nós junto. Quem somos? Do que gostamos? Como nos movemos no mundo? O que nos sentimos chamadas a criar? Me sinto na parte seca do rio, desconfiada de que a criação ressurgirá. Quero garantias de como, quando e em que termos se dará esse renascer. 

Quero saber se vai ser assim ou assado. Me corre um desejo apressado de me agarrar em algo que conheça, mesmo que esse algo já não faça mais sentido. Me dá alguma segurança seguir com o conhecido, em meio a tanto não saber.

Olhando para esse rio que parecia secar e depois ressurgia, pude escutar dentro de mim:

"Quem seremos ao sair dessa?  Quais os termos desse novo tempo?  Como ressurgiremos? O que faço agora, pra onde vou?"

A água me ensinou que, assim como toda a criação, ela tem o jorrar como natureza. Ouvi dela que, no controle, perco energia de autocriação, esqueço que posso confiar na sabedoria organísmica dos ciclos naturais

Em voz doce, o riacho me contou que já estamos criando o novo, mesmo que não possamos ver. Há muita criação no rio debaixo do rio, falou.

Tenho sido tocada pelo Livro Tibetano do Viver e do Morrer, uma obra prima de Sogyal Rinpoche sobre a morte, o morrer, viver e renascer, a natureza da mente e do Universo. No budismo tibetano, a morte é o começo de um novo capítulo da vida. Um dos conceitos centrais dessa abordagem é o "bardo": um estado intermediário entre a morte e o renascimento, uma travessia.

Atravessamos muitos deles ao longo da vida, ainda no corpo físico. São momentos de transição, onde já não somos mais quem éramos e estamos na potência do espaço que nos leva a uma nova margem.

Vivemos hoje um bardo planetário.

Uma das características centrais dos bardos é que são períodos de profundas incertezas. O mar está turbulento e nós, ansiosos, querendo alguma garantia de atracar em algum lugar seguro, ao mesmo tempo em que aprendemos a sustentar o não saber.  Como e quando será o renascimento de uma outra forma de estar? 

Quando desconectamos, deixamos a mente controladora protagonizar. Ela quer a todo custo saber qual a nova ordem porvir. 

No budismo tibetano, nossa disponibilidade de desapegar e de colher aprendizado com o que findou é um dos pontos que define como será nossa próxima fase, ou vida. Como vivemos esse tempo faz parte do que está sendo criado desde já, no rio debaixo do rio.

A forma como atravessamos o bardo carrega consigo material de criação para o renascimento. 

Há algumas semanas, escrevi que "a vida está escancaradamente inédita". No ineditismo, só cabe criar. Não há repertório de respostas calculadas para o que estamos vivendo hoje. Essa é uma oportunidade de criar como nunca antes. Ser artista da própria vida, criar novas realidades, se pôr em estado de autocriação, agir sem condicionamento aos velhos e conhecidos padrões. Ser inédita. Realmente criar. Não recriar, não reagir. Não trazer consigo ranços e vícios do passado.

Dar passos como quem começa uma nova obra: experimentando palavras, cores e movimentos corporais. Dar passos sem precisar saber onde vão levar. 

Tenho ido pra cozinha sem receita em mente. Vejo o que há disponível e me ponho em relação com o grão de bico, o brócolis, o manjericão, o sal. É da relação com cada um deles que vai nascendo o prato. (Cá entre nós, nunca mandei tão bem na cozinha). 

Se me ponho em relação com pré-conceitos do que deve acontecer, perco a potência do espaço vazio.

Não sei quem serei depois da sensação de morte que vivi nas últimas semanas. Não sei que mundo está nascendo. Não tenho como controlar nem garantir.

Tenho como criar, a cada instante, em relação inédita. Para, isso, preciso saber sustentar o vazio, mergulhar na vacuidade e me pôr em estado de observação. Me esvaziar, como o rio. E confiar que é de nossa natureza criar. Que, ao ser tela em branco, algo novo pode surgir. 

Para criar através da intuição, para que possam chegar as informações desse campo de inteligência sutil, precisamos desapegar daquilo que gostaríamos que acontecesse e estarmos abertas a ouvir qualquer resposta, não somente aquela que nosso ego desejaria.  Estou vivendo uma jornada com Ana Thomaz e outro dia ela trouxe que quando a gente se esquece da natureza Una e entra na lógica da separação, nos desconectamos da real potência que temos: a do interser, de sermos conectados a tudo que é vivo. Dessa desconexão, surge a insegurança, a sensação de desamparo e a necessidade de controle e poder. Se permanecemos em conexão, no experienciar que somos natureza interconectada, retomamos o real poder.  Meu exercício tem sido o de não desconectar. Cuidar da minha nascente, aquele lugar de onde nasce toda a criação. Reconhecer o que é real e o que é ilusão. Reverenciar a força da Vida. Agradecer aos movimentos de transformação que posso e também os que não posso perceber. Rezar em devoção à Vida, presente em tudo que meus olhos alcançam e também no que minha cegueira não me permite enxergar. A Vida. Sagrada. Com poder infinito de regeneração.

Como você tem vivido esse bardo? Tem se permitido viver em transição? Quais qualidades têm nutrido, o quanto tem se permitido realmente se dissolver? Como você tem se relacionado com o vazio?  Como você tem criado condições para se conectar com a fonte de tudo que é? Como tem cuidado de sua própria nascente, o espaço inicial de toda criação? Como tem cuidado da Vida que pulsa dentro de si?

A pedido de vocês, compartilho aqui algumas das práticas que têm me apoiado a me manter cuidada e em conexão com o rio debaixo do rio. Espero que te ajudem a encontrar seu próprio caminho de conexão.

> escrever, escrever, escrever (me escutar, fazer sentido do que está acontecendo, reconhecer o ponto onde estou, ouvir minha própria mente com algum distanciamento: o papel). Minha amiga @isabelle_borgesss (no Instagram) tem feito propostas bem ricas para isso!

> meditar no vazio, encontrar a vacuidade que me habita, brincar de sustentar o vazio. Não buscar pelo silêncio, mas abrir espaço para que ela possa se manifestar. (Não é ter intenção, é sobre soltar qualquer intenção).

> rezar, usar o poder da palavra pra me firmar, afinar o canal entre o coração e a voz.

> manter contato vivo com o fogo. Tenho a benção, a escolha e o privilégio de morar em uma casa onde posso fazer fogueira e acender lareira. Se conectar com a chama de uma vela já tem força. Mantenha sua presença junto do fogo. Está feito.

> manter contato vivo com a terra: encostar a pele no solo, na janela do apartamento, já fiz muito isso! Cozinhar em contato com o alimento-natureza, buscando ao máximo alimentos não processados: tocar, cheirar, ouvir o alimento. A @nutrisuellenlorenci , amor meu, fala de forma super acessível sobre isso.

> manter contato vivo com a água: tomar banhos cuidadosos, passando óleo no corpo ao fim, ter um chá quentinho sempre ao lado (aqui na serra está bem frio).

> manter contato vivo com o ar: pausar durante o dia para só respirar. Reconhecer a mudança de temperatura ao longo do dia, olhar as nuvens e o céu.

É isso, amores. Muita movimentação silenciosa acontecendo, não é mesmo? Uma árvore que cai faz mais barulho do que uma floresta que cresce.  Seguimos em conexão viva, aprendendo a sustentar o vazio e a confiar no poder infinito da criação!

Com amor, Carol

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