Aprendizados sobre fechar ciclos

Na semana passada fechei oficialmente o ciclo com a cidade grande. Depois de quase 3 anos morando no interior e mantendo uma base no Rio, entreguei o apartamento que dividia com outras 4 pessoas. 


Foi um processo bonito, que me trouxe muitos insights sobre fechar (e consequentemente abrir) ciclos. Para iniciar algo com elegância, precisamos finalizar o ciclo anterior honrando tudo o que foi.


Nesse início de ano, estamos todos nesse tempo entre mundos, finalizando o ciclo anterior e dando as boas vindas ao que pede passagem. Compartilho aqui alguns dos principais aprendizados vividos:


> Reunir-se para seguir com força focada

Já escrevi aqui que as transições são como os partos: estreitos, escuros, desconfortáveis. Não sabemos o que está por vir, escolhemos ir para o lado de lá na confiança de quem escutar o corpo, que diz: é hora. O que acontece a partir disso é uma jornada rumo ao desconhecido, que nos aperta e testa nossa fé.


Foi bonito passar dias me reunindo com tudo que é material e que chamo de “meu” e escolhendo o que faz sentido seguir comigo e o que pode ser doado. 


Olhando para tudo em caixas, finalizando 2 anos de transição para o campo, percebi: para mudar algo com firmeza é preciso se reunir consigo mesma, rever sua própria vida, juntar energia, deixar tudo bem pertinho de você e seguir. Condensar energia para ter foco de raio laser.


É como fazer as malas para viajar. O viajante experiente sabe: carregue o mínimo de peso, tenha o mínimo de volumes. Viajar pesada, cheia de sacolas, é pedir pra perder agilidade e espontaneidade.


>>> Quer mudar? Reuna sua energia. Não se deixe espalhar por todo canto. 

Faça uma linha do tempo, arrume sua casa, colha aprendizados do último ciclo, cancele assinaturas, saia de grupos de whatsapp. Chame sua energia de volta pra você.


> Ser consciente sobre o quê levar adiante

Em um determinado momento, me vi tentada a levar vinis, quando nem vitrola tenho. “Ah, mas pode ser que você queira ter um, seria tão legal...”, pensava. Não quis levar algo pela possibilidade de vir a ter quem sabe talvez um aparelho que viabilizaria o uso desse algo. É muita desconfiança na vida, é muita necessidade de reter por medo de que as coisas não fluam.


Ao mesmo tempo, percebi a magia e a abundância acontecendo nas pequenas coisas: eu precisava de um elástico pra fechar uma cartolina e, bem ali do meu lado, na bagunça do chão, um elástico. Queria uma caixa para reunir as pilhas do lixo eletrônico e alguém aparecia na sala perguntando “alguém quer essa caixa?”.


Escolhi, com dor no coração, me desfazer de uma placa com a logo Casa Sou.l, empresa que tive por anos e que foi uma grande escola. Era grande e sem uso, ficava no fundo do armário, com muito valor sentimental. Não foi fácil escolher colocá-la para reciclar. Na mesma tarde, abrindo pastas para ver o que levaria ou não, encontrei crachás no formato da logo, com o nome de meus sobrinhos, feitos no dia da inauguração da casa. Cabiam na palma da minha mão. Coloquei na pasta de recordações preciosas, agradecida por poder ter algo ainda mais afetivo do que a placa. 


Decidi só levar comigo aquilo que me faria feliz agora (valeu, Marie Kondo!!), confiando que, se eu precisar de algo no futuro, as deusas que me trouxeram o elástico, a lata e as outras mil magias se fariam presentes novamente.


Quero ter em casa somente o que me faz feliz, porque quero um lar onde a felicidade impere, e não o medo da falta. Escolho um lar abundante e não escasso.


Acho que reduzi a quantidade de caixas em uns 40% com essa lógica. 


>>> Está abrindo um novo ciclo? Só leve o que faz sentido e o que é realmente necessário: relações, roupas, hábitos, pensamentos, salários. Confie, que a vida proverá.


> O que parece sem valor pra você pode ser uma preciosidade para outro

Éramos 5 a escolhermos o que levar adiante. A abundância era tamanha que um pequeno bazar se formou e chamamos amigues mais próximos para escolherem o que gostariam de levar de presente de gratidão por anos de experiências maravilhosas naquele lar.


A primeira pessoa que veio foi uma aula.


Pegou coisas que eu só não havia colocado no lixo porque a meta era fazer uma mudança lixo zero. Latas antigas, velas quebrados, vasos rachados. Viu arte em tudo! Com criatividade, novos usos para cada uma das coisas. 


Onde eu só via lixo, ela via beleza.


Vejo a mesma coisa nos atendimentos. Pessoas que querem mudar sua atuação profissional e não conseguem enxergar que o que fizeram até hoje pode ser muito precioso para sua transição. Designers que estão em crise com o que fazem e querem empreender socialmente e precisa ampliar sua rede pode apoiar empreendedores sociais a criarem suas marcas enquanto conhece pessoas. Advogados que não aguentam mais o esquema trabalho-casa-trabalho podem fazer serviços de freelancer enquanto estruturam seu novo negócio. 


É sobre olhar para a mesma coisa com novos olhos.


>>> Quer “começar do zero”? Aproveite os recursos disponíveis para viabilizar sua transição.


> Fechar ciclos com gratidão, honrar tudo que é

Transbordamos gratidão por tudo e todos que passaram por nossa casa, passando adiante aquilo que não teria uso. Agradecemos por cada ítem, demos nosso melhor para não enviar nada para a reciclagem. Doamos lixo eletrônico pra ONG, livros para escola, ferragens para ferro velho… Nenhuma energia foi descartada sem antes buscarmos um ótimo uso para ela.

Afinal, tudo demandou recurso da mãe Terra. Jogar “fora” é desonrar nossa casa. 


Honramos tudo em gratidão a vida. Há de se finalizar ciclos com elegância. Fechar e abrir são duas faces de um só processo. Quer começar bonito? Feche bonito!


>>> Fechando um ciclo? Seja cuidadoso com o que fica pra trás. Um e-mail de agradecimento ao chefe, uma festa de agradecimento por tudo que a empresa ensinou, uma caixa de memórias e conversas regenerativas para finalizar o relacionamento. 

___

Estou muito grata por todo aprendizado que a Bhome, esse lar, proporcionou a mim e a tantos que passaram por lá. 

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