Propósito de vida: uma questão existencial


Volta e meia eu busco artigos sobre propósito online. E me deparo com coisas do tipo:

3 etapas para encontrar e seguir seu propósito de vida.

Como saber definitivamente seu propósito.

5 dicas para descobrir seu propósito de vida.


Viver seu propósito virou algo a ser comprado. 


Em breve, vão vender propósito em cápsula. 


Estamos comercializando nossa própria existência, fazendo de algo grandioso como “propósito” algo que pode ser alcançado em 3 passos.


Que desperdício. 


O fast food do desenvolvimento humano está tentando esvaziar a busca de uma vida toda.


Queremos uma resposta rápida para a pergunta “o que estou fazendo aqui?”. Eu não compro nada que me ofereça uma promessa de resposta sobre uma pergunta existencial. 


Chegar excessivamente rápido a uma resposta definitiva pode estar revelando o medo de empreender a jornada mais profunda: o mergulho pra dentro. Eu acredito que esse é um caminho inevitável se você quer responder com verdade sobre seu propósito. Há de se aproveitar a oportunidade de crescimento, evolução e reinvenção que vem com a coragem de não responder, de sustentar o não saber.


Sim, é necessário uma boa dose de destemor sustentar a pergunta “qual é meu propósito?”, sem correr em direção à resposta mais próxima.


Porque essa ideia de que seu propósito é o que você faz está ancorada numa lógica em que o FAZER segue sendo mais importante do que o SER. Estamos em busca de um trabalho com propósito, sem perceber que seguimos atuando na mesma lógica que nos levou a buscar o propósito: a de uma vida vazia, sem espaço de preenchimento do ser. Querer responder a uma questão existencial sem encarar o vazio da própria existência não vai nos render respostas satisfatórias.


Há de se suspender a pressa por fazer e ter a audácia de encarar o ser. 


Fazer algo que me preencha, que me traga vida e entusiasmo é uma consequência de saber de mim mesma. O trabalho com propósito é consequência de termos a ousadia de sermos quem realmente somos, de não nos rendermos àquilo que pensamos que querem da gente.


É um ato de desdoma, de ocupar-se de si mesma, de descolonização.


A ideia de encontrar “o propósito”, aquilo que você vai fazer para o resto da vida, algo a ser definido, me parece a repetição de um paradigma industrial, onde cada um tem uma função no sistema, até o fim. Seguimos como peças de uma engrenagem, mas agora com um nomezinho mais bonito e que traz mais status: “eu trabalho com propósito”. 


Só que não somos máquinas. Somos organismos vivos. E, como todo organismo vivo, estamos em constante processo de auto-criação e vir a ser. Não é possível nos encapsular em uma função específica e desejar que sigamos felizes para sempre. Eu não quero encontrar O meu propósito. Quero estar próxima de quem sou. O que faço é consequência de não abrir mão de quem sou. Por isso, o propósito é mutável, como eu, em constante processo de vida-morte-vida. É necessário reconhecer quando já não somos mais àqueles que achávamos que éramos. E se encontrar com o vazio do não saber, que é também o campo das infinitas possibilidades de reinvenção. 


Como vamos manifestar nossa essência em forma de serviço é consequência desse processo de autodescoberta. Esse é o processo de transbordamento: ocupar-se tanto de ser quem você é que o que você faz acontece como consequência natural, pois passa a ser um chamado escoar-se em ações coerentes. Quando se está em busca de alinhar-se a quem se é, as ações vêm de um lugar de coerência interna e nos preenchem de vida por não estarmos separados de nós mesmos ao agir. É sobre manifestar quem você é na sua ação, sobre não abrir mão de si mesmo.


O trabalho com propósito, por ser um reflexo de nós mesmos, está em constante transformação, como nós.


Não há fórmula, não há produto nem serviço que vá revelar o significado da existência. Há de se caminhar, de se descamar, de se desaprender, de tirar as máscaras e cascas que nos separam de nós mesmos e, com isso, nos aproximarmos de nossa essência.  Esse é o trabalho de nossas vidas, esse é o propósito. Isso sim, vamos fazer pelo resto de nossos dias.


Foque em ser quem você verdadeiramente é, mesmo que isso vá de encontro a convenções que te mutilam. Volte a ser inteiro. Um trabalho com propósito é consequência de um processo de desdoma. Não se deixe enganar pelas fórmulas. É sobre se desenformar.

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