racionalidade a serviço do instinto

Tenho precisado perseverar para seguir criando depois de parir. Minha mente diz: já tá bom.

“Já é grandioso o suficiente, pode parar, tá maneiro. Você não vai dar conta de sustentar atenção pra a cria e pro trabalho. Seja “só mãe”, já é muito.”

Aí vem o útero e pulsa de novo. Esse órgão/centro energético que tem potência milagrosa de criar o que for. Ele pede: segue, mulher. Segue que você está mais poderosa e humildada do que nunca. O que vier a partir de nós será potente por ser verdadeiro.

Tenho escolhido ouvir o corpo. Ter parido me ensinou a confiar nele incondicionalmente. Parir não é processo mental, é animalesco, selvagem, gutural.

Então me movo como aquele tigre branco que fui, que urrou antes de ter cria no colo. Corpo ativo, olfato apurado, olhar atento, poros abertos.

Colocar experiência antes da mente, escutei esses dias. Confiar no ser bicho e usar a racionalidade a serviço do instinto.

Sinto medo do porvir, de não ser capaz de sustentar as criações, de não saber o que fazer, como responder aos desafios futuros.

Me relembro do corpo que se alargou pra fazer gente, expandiu a cada contração e expeliu ser humano pronto pela vagina e reativo as células: você pode, lembra?

Crio esse novo projeto desde esse novo lugar: farejando os caminhos, movendo as águas internas. Crio como quem move barro: tateando a terra, escutando sua potência, criando em resposta a seus pedidos.

No tempo certo apresento essa criação selvagem pro mundo.

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